A condição feminina em "Memórias Póstumas de Brás Cubas": o destino de Eugênia, Marcela e Virgília - por Samantha dos Santos Di Franco
A condição feminina em Memórias Póstumas de Brás Cubas: o destino de Eugênia, Marcela e Virgília
Introdução
No universo literário Machadiano, as personagens femininas muitas vezes enfrentam as limitações impostas por uma sociedade patriarcal e elitista do século XIX, ou seja, viviam em constante condição de submissão ao homem: quando moça devia obediência ao pai; quando casada, ao marido e assim sucessivamente. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, encontramos Eugênia, Marcela e Virgília, três mulheres cujos destinos refletem diferentes faces da opressão social e condição feminina na época. Eugênia, em particular, é uma personagem que exemplifica a vulnerabilidade e marginalização de mulheres sem prestígio ou riqueza, representando a classe social mais baixa e, portanto, um dos segmentos mais oprimidos da sociedade.
A escolha de Eugênia para este trabalho vem através de seu destino trágico e por seu papel extremamente marginalizado na narrativa da obra como um todo, sendo submetida não só ao abandono por parte de Brás Cubas por causa de seu “pé aleijado”, mas também da falta de prestígio social. Em contraste, com as outras personagens femininas, Marcela e Virgília, que desfrutam de mais liberdade, ainda que seja voltada aos interesses e desejos masculinos. Ao observar a trajetória das três personagens podemos entender como as mulheres eram localizadas na sociedade brasileira do século XIX.
1. A Escolha de Eugênia: Vulnerabilidade e Opressão
Eugênia é uma personagem trágica, que representa as mulheres vulneráveis, com pouco ou nenhum poder na sociedade e pessoas com deficiência. Desde os primeiros momentos em quem Eugênia é citada, Brás Cubas sempre enfatiza sua beleza e sua condição física, criando uma dualidade entre o encanto e desejo que sente por ela, além de expor o preconceito que tem. Brás Cubas diz:
"O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma…"
(Memórias Póstumas de Brás Cubas, pág. 102)
Nesse trecho, Brás Cubas descreve Eugênia como uma figura bela e ao mesmo tempo “imperfeita”, principalmente por conta da época que a obra se passa. Retratando a completa indagação dele sobre a contradição entre a beleza e a deficiência física de Eugênia onde revela o preconceito social e o julgamento estético que ela enfrenta durante toda a obra. Para ele, o “contraste” de Eugênia sugere um “escárnio” da natureza, algo que a coloca em uma posição de inferioridade e a distância de um futuro ao lado de um homem como ele. A exclusão de Eugênia, portanto, não se dá por quem ela é, mas pelo que simboliza socialmente, evidenciando a forma como as mulheres que não atendem aos padrões sociais são marginalizadas.
2. A Representação de Eugênia e o Desprezo Social
Ao longo da obra, a relação de Brás Cubas com Eugênia é pautada completamente pelo julgamento, vergonha e preconceito que ele tem em relação a ela. Em um momento de reflexão, ele pondera sobre a possibilidade de ficar com ela, mas logo a descarta:
"Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (At. IX, 7): 'Levanta-te, e entra na cidade.' Essa voz saía de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposála. Uma mulher coxa!"
(Memórias Póstumas de Brás Cubas, pág. 105)
Nesse trecho Brás Cubas narra sua resistência em prosseguir com a relação com Eugênia, descrevendo seu “terror” da possibilidade de realmente se apaixonar e pensar em desposar uma mulher considerada “coxa”. A expressão "Uma mulher coxa!" reforça ainda mais o preconceito que o impede de considerá-la como esposa, revelando a falta de aceitação de qualquer “imperfeição” que ela poderia apresentar.
3. Comparações com Marcela e Virgília
Ao longo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Marcela e Virgília surgem como outras personagens femininas que, assim como Eugênia, ocupam papéis voltados para o desejo e pelo julgamento masculino. No entanto, suas posições sociais mais elevadas permitem que elas tenham mais liberdade, ainda que limitada em relação a Eugênia.
3.1 Marcela: Manipulação e Dependência
Marcela é uma cortesã que representa a mulher que utiliza sua sensualidade para se sustentar em uma sociedade patriarcal, que aos olhos de Brás apenas usa da sua beleza para manipulá-lo em troca de ganhos financeiros, sem nem considerar a possibilidade dela gostar dele sem interesse financeiro. Essa ideia fica bastante clara nessa passagem: “... Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.” (Memórias Póstumas de Brás Cubas, pág. 60).
Essa citação sugere que o amor de Marcela por Brás Cubas é medido em termos financeiros, reforçando a relação dela com ele como um contrato onde a sensualidade feminina serve apenas como moeda de troca. Embora pareça que ela tenha mais liberdade que Eugênia, Marcela continua uma dependente dos “favores masculinos”. Ela representa as mulheres que, mesmo buscando maior independência, não conseguem escapar completamente do controle social dos homens.
3.2 Virgília: Entre o Encanto e a Rebeldia
Virgília se destaca como a personagem feminina mais poderosa dentro da alta sociedade, sendo casada com um homem de prestígio. Sua posição a torna uma figura complexa que transita entre os papéis esperados de uma mulher da elite e suas próprias ambições pessoais. A relação dela com Brás Cubas é marcada por um romance extraconjugal, onde revela seu espírito audacioso e sua determinação em desafiar as convenções sociais. Brás a caracteriza de forma ambígua: “Positivamente, era um diabrete Virgília, um diabrete angélico…”(Memórias Póstumas de Brás Cubas, pág. 121).
Essa descrição revela a natureza multifacetada de Virgília, que combina encantamento e sedução com uma astúcia rebelde. O termo "diabrete" sugere um espírito travesso, desafiador das normas, enquanto "angélico" contrasta com a ideia de pureza, indicando que ela não se conforma passivamente, mas utiliza sua inteligência e charme para navegar em um mundo dominado por homens. Apesar de sua aparência de mulher de alta posição, Virgília enfrenta limitações impostas pela sociedade patriarcal. Ela usa seu casamento e suas relações para obter poder e satisfação pessoal, sempre atenta às expectativas de seu papel como esposa. Assim, mesmo com um nível de liberdade maior que Eugênia, Virgília deve equilibrar suas vontades e aspirações com a necessidade de manter sua imagem e reputação.
4. Reescrita da História de Eugênia, Marcela e Virgília: Um Encontro de Forças Femininas
Após seu breve envolvimento com Brás Cubas, Eugênia decide transformar a experiência em uma jornada de autodescoberta e independência. Nesse processo, ela conhece Marcela, uma mulher carismática e de espírito livre, que, apesar de sua reputação na sociedade, guarda dentro de si o desejo de viver plenamente e de desafiar as restrições que lhe foram impostas. Entre conversas e risadas, Marcela enxerga em Eugênia uma aliada e uma amiga, alguém que, assim como ela, anseia por algo maior: “Não quero apenas entreter a elite com rostos bonitos e palavras bonitas, Eugênia. Nós temos a chance de inspirar, de fazer com que outras mulheres olhem para si mesmas e vejam que podem ser mais do que lhes disseram para ser. Cada vez que uma de nós se ergue, outras seguem, como uma corrente que nada pode quebrar”.
Inspiradas por essa visão, elas criam um projeto artístico com apresentações de poesia, música e teatro, onde expõem temas como liberdade e a beleza da autenticidade feminina. Os eventos são realizados em salões privados, muitas vezes de forma secreta, atraindo mulheres de diversas origens, interessadas em explorar as próprias vozes e experiências. Eugênia, em uma dessas apresentações, lê um de seus poemas e fala ao público com paixão: “Dizem que sou imperfeita, que a beleza que me deram veio com uma marca... Mas quem decide o que é imperfeito? Olhem para mim, olhem para nós: a beleza que carrego não está nas minhas feições, mas na força que nasce do que vivi, das barreiras que atravessei. Cada palavra que falo é uma cicatriz transformada em verso.”. Essas palavras tocam o coração das mulheres presentes, que veem em Eugênia uma inspiração para superar os próprios medos e limitações.
A notícia do projeto chega a Virgília, uma mulher casada com um político influente, que se sente sufocada pela vida de convenções e aparência. Virgília, fascinada pelo movimento de resistência que Eugênia e Marcela iniciaram, as encontra e propõe uma parceria: “Escrever é um ato de coragem, sabem? Colocar no papel nossos sonhos, nossos medos, as histórias que nunca pudemos contar... É um jeito de não deixar que os outros decidam por nós,” diz Virgília durante uma oficina, incentivando outras mulheres a expressarem suas histórias.
Sob a influência de Virgília, o projeto ganha uma dimensão política e social. Elas começam a apresentar peças teatrais satíricas, expondo as contradições da sociedade. Durante uma reunião secreta, Virgília desabafa: “Eles nos ensinaram que o silêncio é o nosso único poder, que devemos sorrir e obedecer. Mas que poder é esse que nos deixa invisíveis? Eu digo que o verdadeiro poder está na nossa coragem de romper esse silêncio, de expressar o que há dentro de nós.” Com o apoio de Virgília, as apresentações começam a desafiar diretamente as expectativas sobre o papel das mulheres e questionam abertamente os ideais impostos pela sociedade patriarcal. O trio se fortalece e a influência de seu projeto se espalha. Marcela, que antes usava sua beleza para conquistar favores, agora descobre uma nova satisfação em investir seu carisma e inteligência em algo profundo: “Eles vão nos chamar de ousadas, de insolentes. Vão tentar nos silenciar. Mas é exatamente isso que me faz continuar,” afirma Marcela, incentivando o grupo a ir além nas provocações artísticas.
Ao longo do tempo, o salão onde realizam as apresentações torna-se um ponto de encontro para mulheres em busca de expressão e de uma nova visão de vida. As apresentações incluem poesias, danças e cenas dramáticas, nas quais Eugênia, Marcela e Virgília revelam suas visões sobre o autoconhecimento e a liberdade. Marcela, com sua presença magnética, organiza as apresentações e utiliza seu talento para envolver a plateia, enquanto Eugênia transforma suas experiências em poesia. Cada evento é uma revelação onde as três mulheres criam uma atmosfera de união e inspiração para que todas ali se reconheçam e se empoderem.
Eugênia, em uma de suas performances, afirma com firmeza: “Eu pensei que, para ser amada, eu teria que esconder quem sou, disfarçar minhas marcas. Mas hoje eu vejo que estas marcas são o que me torna única.” Em outra ocasião, Virgília olha para as mulheres que a rodeiam e as desafia a escreverem seus próprios destinos. “Que o que criamos aqui seja mais do que uma distração para eles; que seja uma faísca para nós!”. O projeto artístico de Eugênia, Marcela e Virgília não apenas lhes permite explorar suas próprias identidades, mas também inspira uma rede de apoio e resistência. Ao final de cada evento, os convidados saem inspirados e fortalecidos, e muitas das mulheres presentes encontram coragem para questionar as normas e superar suas limitações. Com o tempo, o trio se torna símbolo de uma nova era para as mulheres, onde a amizade, a arte e a coragem se entrelaçam para construir uma sociedade onde todas possam florescer.
5. Conclusão: A Resiliência Feminina como Protagonismo
Nessa nova versão, Eugênia deixa de ser a personagem trágica e passiva que antes foi retratada à margem da história para se tornar líder de um movimento de resistência. Com a ajuda de Marcela e Virgília, ela muda o destino de resignado a ela pela sociedade, conquistando uma posição de protagonismo que as personagens femininas raramente tinham na época e principalmente nas obras de Machado de Assis. Essa nova trajetória de Eugênia e suas aliadas destaca a força do apoio mútuo entre mulheres, revelando o poder que elas podem alcançar quando se unem para desafiar as estruturas que as oprimem.
Marcela, Virgília e Eugênia, assim, tornam-se mais do que coadjuvantes em uma história alheia: elas são donas de seu destino e, juntas, representam a possibilidade de uma nova sociedade. Por meio de sua união e de sua coragem, elas passam a escrever suas próprias vidas, livres das amarras impostas pelos homens ao seu redor. Essa reescrita transforma a rejeição e o desprezo que enfrentaram em força e solidariedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ed. Melhoramentos, 1963.
