LILITH: da marginalização à protagonista - por Akemi Watanabe

LILITH: DA MARGINALIZAÇÃO À PROTAGONISTA

Neste trabalho, abordarei a história de Lilith, descrita como a primeira mulher de Adão, uma figura de resistência feminina que enfrenta o exílio como destino por se recusar a se submeter aos mandamentos de Adão e de Deus. Após seu ato de rebeldia, Lilith logo passa a ser associada à escuridão, ao pecado e à repugnância. Este estudo examina sua trajetória de marginalização e a ressignifica como um símbolo de autonomia feminina. Utilizo, entre outras fontes, Eva-Proto-Poeta, de Adriane Garcia (2020), que explora as facetas de Lilith e Eva como representações da luta feminina por liberdade e voz.


Lilith tem suas origens, segundo estudiosos, na mitologia mesopotâmica, onde é descrita como um espírito maligno. Posteriormente, aparece na literatura judaica antiga, no Talmude, sendo descrita como um espírito alado que caçava mulheres grávidas e crianças. Ela também faz uma breve aparição na Bíblia, no livro de Isaías. Na Idade Média, reaparece no folclore judaico medieval como a primeira mulher de Adão. Em interpretações modernas, é retratada como símbolo de força e resistência feminina.


A primeira referência indireta a Lilith está na Epopeia de Gilgamesh, uma das obras literárias mais antigas do mundo, originária da Suméria em 2000 a.C. Embora ela não apareça diretamente no texto, alguns estudiosos fazem uma conexão entre Lilith e figuras como “Lilu” ou “Lilitu” — demônios femininos da noite na mitologia mesopotâmica — como possível inspiração para o desenvolvimento posterior do mito de Lilith. Neste contexto, Lilith é retratada como um demônio alado, causador de caos.


Esses primeiros relatos associam Lilith a características noturnas e sedutoras, o que influencia sua imagem como ser feminino rebelde e perigoso no Talmude judaico. Ela é vista como ameaça aos recém-nascidos e como símbolo de desejo e sedução, dotada de uma aura de rebeldia e poder. No Talmude, Lilith é descrita como capaz de gerar filhos demoníacos, enfatizando sua independência e natureza transgressora em relação aos padrões da época.


Na trajetória bíblica, em Gênesis 1:27, Yahweh cria os primeiros habitantes da Terra: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou.” Essa passagem está presente no primeiro capítulo da Bíblia; no entanto, no segundo capítulo, a criação do mundo é descrita novamente, e a narrativa apresenta a clássica história do homem moldado a partir do barro, enquanto a mulher, Eva, é criada da costela de Adão e já colocada em posição subalterna: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!” Essas duas versões, presentes na Bíblia, trazem uma contradição. Em uma, a mulher é criada ao mesmo tempo que o homem; na outra, ela é gerada a partir do corpo masculino. A primeira passagem, segundo a leitura de alguns estudiosos, faz referência a Adão e sua primeira mulher, Lilith.


Lilith é nomeada na Bíblia em Isaías 34:14, em uma profecia de Deus contra o reino de Edom: “Os gatos selvagens se juntarão a hienas, e um sátiro clamará ao outro; ali também repousará Lilith e encontrará descanso.” Nessa primeira aparição, Lilith é associada a um espaço de exílio, solidão e abandono. O apagamento de Lilith é visível em traduções modernas da Bíblia, onde seu nome é substituído por "criaturas noturnas". Essa alteração histórica transforma Lilith em uma figura genérica e desprovida de identidade própria, exemplificando a tentativa de silenciar mulheres que resistem a normas de gênero e à subjugação.


Lilith é frequentemente retratada como figura demoníaca e símbolo da transgressão feminina em textos religiosos e literários. Embora sua presença na Bíblia Hebraica seja mínima, como em Isaías 34:14, o folclore judaico a representa como uma figura de perigo e mistério.


Adriane Garcia, em Eva-Proto-Poeta, amplia essa perspectiva, contrapondo Lilith e Eva para explorar as diversas manifestações da voz feminina. Lilith, ao abraçar sua liberdade, abre caminhos para que Eva possa fazer o mesmo. A obra de Garcia destaca a pluralidade do feminino, em que Lilith se configura como um arquétipo de resistência e luta pela liberdade.


Em uma reinterpretação dessa história, Lilith transforma seu exílio em uma jornada de autoconhecimento e força. Milênios depois, é encontrada uma carta deixada por ela, onde Lilith retorna, não mais como figura demoníaca, mas como guia para mulheres que, como ela, resistem ao controle patriarcal. Sua carta, narrada em primeira pessoa, revela o impacto transformador de sua escolha:


"Milênios se passaram desde que fui banida do Éden. Fui a primeira mulher, criada ao lado de Adão, mas recusei me submeter. Não aceitava que minha existência fosse definida por obediência. Quando me neguei a deitar sob ele, fui expulsa, condenada a vagar pelo mundo, transformada em um mito de desobediência, um símbolo de rebeldia.


Ao longo dos séculos, minha história foi distorcida. Fui chamada de demônio, sedutora, causadora de caos. Mas o que poucos compreendem é que minha partida do paraíso não foi uma derrota. Pelo contrário, foi o começo de algo muito maior. Na minha solidão, encontrei força. No deserto, onde muitos pensavam que eu havia sido esquecida, construí meu próprio reino.


Agora, após eras de silêncio e sombras, sinto que é o momento de retornar. O mundo mudou, e eu vejo as marcas de minha essência em todas as mulheres que se recusam a dobrar os joelhos perante qualquer autoridade injusta. Elas são minhas filhas, mesmo que não saibam. Suas lutas, suas vozes que se elevam contra a opressão, são o reflexo da decisão que tomei há tanto tempo.


Eu as observo. Elas caminham por um mundo ainda cheio de desigualdades, enfrentando batalhas que conheço muito bem. São silenciadas, desacreditadas, mas em seus olhos brilha a chama que nunca se apagou. A mesma chama que me fez enfrentar o patriarcado do Éden. E agora, eu volto não como um mito, não como o demônio que tantos tentaram pintar, mas como guia e companheira. Trago palavras de esperança, pois sei que suas batalhas não são em vão.


Caminho entre elas, invisível aos olhos de quem não conhece a resistência. Vejo a jovem que desafia o sistema educacional que a limita, a mulher que luta pelo direito sobre o próprio corpo, aquelas que marcham nas ruas, que se recusam a se calar. Minhas filhas, aquelas que, mesmo sem me conhecer, seguem os mesmos passos de independência. E a elas, sussurro:


'Não temam. Eu, que fui banida, sobrevivi. Vocês, que enfrentam o mundo, também sobreviverão. O poder que tentam roubar de vocês está em cada ato de resistência, em cada palavra de coragem.'


No fim, percebo que o Éden nunca foi o paraíso que imaginavam. O paraíso que me foi negado não se encontra em jardins perfeitos, mas na força das mulheres que se recusam a aceitar menos do que merecem.”


Lilith representa uma força feminina que resiste ao patriarcado, oferecendo inspiração às gerações de mulheres. Sua carta aberta, em uma visão renovada, revela o potencial de recriar a sociedade com base na igualdade, onde a liberdade de escolha e o respeito mútuo são respeitados.


A trajetória de Lilith, frequentemente apagada ou distorcida em textos bíblicos e tradições patriarcais, representa uma rica história de resistência feminina. Ao reimaginar seu destino, Lilith se transforma em uma heroína que inspira as mulheres a resistir às limitações impostas por estruturas desiguais de poder. Reformulada, Lilith emerge como uma figura poderosa que continua a inspirar as mulheres na busca pela liberdade e pelo reconhecimento de seus direitos.



Referências

CALDEIRA, HR (Estranha História). Lilith. YouTube, 1/11/2023. Disponível em: https://youtu.be/RMY5DIJmr7Q?si=IrxxmZYe-0zoWHM_. Acesso em: 21. Out, 2024.

GARCIA, Adriane. Eva-Proto-Poeta. Caos & Letras, 2020.

BIBLICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY. Lilith. Available at: https://www.biblicalarchaeology.org/daily/people-cultures-in-the-bible/people-in-the-bible/lilith/. Acesso em: 2. Nov, 2024.


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