OPHELIA - por Sara Iquiene Frota Lima
OPHELIA
A proposta deste trabalho é uma reflexão sobre a imagem feminina na obra de William Shakespeare, Hamlet, e as representações das mulheres nas obras literárias clássicas e contemporâneas. Sendo elas, muitas vezes, vítimas de tragédias pelas violências, silenciamentos e ocultamentos, como Medusa na obra de Ovídio, ou Sara, mãe de Isaque, retratada na obra da Bíblia Sagrada, o que reflete diretamente a visão da mulher na história do patriarcado. Pretendo assim, utilizar a visão de Hélène Cixous em sua obra O riso da Medusa para ressignificar o testemunho do horror presente na trajetória do feminino na literatura, convocando o leitor a deslocar o ponto de vista para o gesto de ruptura, tendo como referência principal Ofélia, situando a ideologia da morte da voz do feminino na tragédia.
Mesmo sendo a personagem mais popular de William Shakespeare, sua história se limita a um papel secundário: apenas como a mulher que cai do riacho após ser negada ao amor recíproco de Hamlet, príncipe da Dinamarca, resultando na sua trágica e lamacenta morte. Sua figura em vida e até em sua própria morte nunca foi narrada por si, mas sim por Gertrudes, mãe de Hamlet, a representando como histérica ou morta, firmando mais uma vez o silenciamento da sua própria história.
Ophelia tornou-se ainda mais popular com sua representação visual na pintura de Sir John Everett Millais em 1852 (Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Ophelia-painting-by-Millais ). A obra visual representa um salgueiro que cresce inclinado a um riacho e um lago que segue seu fluxo, no qual Ophelia se encontra. Uma donzela casta, tendo sua delicadeza bastante expressiva. Longos cabelos soltos, pele pálida como a neve e um vestido longo encharcado com a água que lhe afoga juntamente com ramos de flores que compõem uma figura extremamente romantizada de seu fim trágico. Ofélia parece reconhecer e aceitar sua própria morte, sendo levada pelo riacho de forma extremamente apática.
Podemos interpretar essa imagem como a visão da mulher na história da literatura refletindo no imaginário social. Mulheres que, mesmo diante a desesperos e dificuldades se mantinham passivas, caladas, mantidas no obscurantismo da sua própria trajetória. Sem ao menos ter o poder de intervir e ressignificar seu próprio testemunho. As que faziam, eram tachadas de histeria.
Para estudar Ophelia ou até mesmo outras personagens literárias da tragédia, é curioso perceber o padrão cultural do assassinato de mulheres representando a repulsa pelo feminino, um culto à invalidez feminina no circuito geral da imaginação misógina na literatura, como discorre Marcia Tiburi no artigo “Ofélia morta: Discurso da imagem” (Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-026X2010000200002). Ophelia é estudada na história da arte como uma representante do “impulso assassino”, muito presente na história do patriarcado e explorado nos textos trágicos antigos e contemporâneos. Corresponde a uma ideologia necrofilia própria do romantismo que cultua a mulher cadáver, imóvel, em pedra, sem voz ou movimentos, o que diz sobre como gozo masculino vê a mulher e se posiciona diante dela.
A imagem de uma mulher não deve ser pensada como uma imagem única, universal, como tradicionalmente, mas deve ser tratada de forma dialética como a imagem de uma mulher que se torna imagem de uma mulher, partindo do pressuposto de que Ophelia foi a imagem de uma mulher na visão de um homem. Ao dizer visão, digamos representação, uma montagem, que não poderá ser desconsiderada de um caráter particular, configuração de um sujeito, de um lugar ou época idealizado. Em outras palavras, um particular que se torna universal. Ophelia se torna uma questão cultural, uma mulher canonizada como imagem de mulher.
Qual é a mulher que, sentindo agitar em si uma estranha vontade (de cantar, de escrever, de proferir, enfim, de pôr para fora coisas novas), não pensou estar doente? Ora, sua doença vergonhosa é o fato de resistir à morte, é o fato dela causar tanta dor de cabeça. E por que você não escreve? Escreva! A escrita é para você, você é para você, seu corpo lhe pertence, tome posse dele.
(CIXOUS, Hélène. O Riso da Medusa. 2022, p. 44)
PROPOSTA DE REESCRITA
A visão de Ophelia
Há um salgueiro que cresce inclinado no riacho, riacho do qual reflete suas folhas espalhadas pela água cinzenta e repleta de lodo. Lá estava, tentava subir nos galhos inclinados do salgueiro. “Não suba”, a brisa sussurrou, enquanto os longos cabelos do salgueiro me cegavam, mas continuei, brigava com o que me aconselhava. Estava na escuridão, não enxergava. “Pobre Ofélia, será mesmo seu juízo tão mortal quanto o tempo que resta a um velho?” Escutei a voz de meu irmão em minha mente.
Um ramo tão teimoso como eu se quebrou. Despencamos juntos no córrego que fluía. A água gelada adormecia meus membros. O vestido branco que usaria para me casar, inflou. Mantive-me boiando por um tempo, não sabia nadar. Minhas jóias oxidaram-se. O salgueiro perdeu apenas um galho, logo se renovará. Presa pela água e corpo suspenso na correnteza, eu possuía uma apatia imutável. Esperava desaparecer junto às flores que ao meu redor se desintegravam. Visivelmente tão frágeis como eu.
Uma serpente descendo do arbusto da paisagem fria se mostrou presente, senti como se meu corpo não estivesse mais vazio. A observei. A presença dela me surpreendeu, uma donzela temeria ao vê-la. Logo, ela se movimentou, se posicionando nas orquídeas reencarnadas. Ela falou comigo, ela me convocava. Estar passiva diante dela era uma condição incabível. A serpente me mostrou algo belo. ''Para que viver no subsolo? Veja, há tantassss coisassss boassss que você pode ussssufruir.'' Ela se aproximou e eu a escutei. Entrelaçou-se à minha mão posta fora da água e apontou o caminho. Pedindo-me que fosse com ela.
Mostrou-me sobre a narração. Me ensinou a escrever a partir da minha memória e como agir diante a construção dela. A serpente não fala como eu falo, porém, sente o que eu sinto. Estava curiosa ao ponto de querer tocá-la com minha outra mão para sentir sua pele. Meus dedos gelados e enrugados pela água encostaram sobre o relevo da derme da serpente. Observei seu reflexo na água e, por ela, me vi. Seu veneno me induziu ao grito, a lançar minha voz do vazio. A aristocracia, patriarcado, vingança, falso amor, tudo aquilo do feito humano, me dilacerava. Até que a encontrei.
Fui iluminada. Meu corpo foi aquecido e preenchido. Manifestaram-se em mim lampejos de epifania. A mentira produzida pelos patrícios sobre riqueza me ocultou da beleza da minha verdadeira origem. Separaram-me de minha mãe natureza enquanto usavam sapatos altos impondo-me que aquilo era a verdadeira grandiosidade. A verdade é: sapatos refletem abuso, a tomada do meu íntimo e da minha autonomia. Pobre Dânae, preservada em sua torre, presa por seu pai, e, pela chuva de ouro, através das frestas de sua porta, teve sua essência tirada e vida corrompida. A reconheci como minha irmã. Também sucumbiria, pois me encontrava longe da minha natureza. Enjaulada em minha própria ignorância ao não conhecê-la.
Do grito que lancei após a desintoxicação a partir do veneno da serpente, se fez crescer línguas na minha cabeça. Me adaptei ao seu linguajar. Com a rã presente entre as flores que se desintegram ao meu redor me comuniquei. Ela me ensinou a pular para fora da água lamacenta que me asfixiava. Por mais pesado que meu vestido estivesse, tornei-me em movimento. A serpente se entrelaçou em minha cabeça como uma coroa. A partir do meu gesto de ruptura, eu exerci minha escrita, uni-me à natureza e reinava junto a ela. Nos tornamos uma, em um matrimônio de essências.
Me tornei Ofélia, serpente brilhante que age com toda sua potência, filha da metamorfose da Medusa, proclamada através dela. Busquei a experimentação do meu eu através da masturbação que foi problematizada e do prazer que me foi privado, permitido apenas para o deleite masculino pela cultura da castidade. Como um terremoto, minha aparição causou para os homens o sentimento de selvageria, estremecendo sua ordem. Não serei atrelada à imagem da mulher necrófila, pois estou viva e gozei assim como minha natureza ensinou. Gozei, pois a partir da minha narração, encontrei-me vigorosa, com fome de buscar, experimentar e proferir a minha palavra. Busquei saciedade pelo bosque tomado por árvores com longos ramos. A serpente me mostrou o caminho enquanto cantava longas canções.
Desfrutei da fruta da frondosa árvore dita pelo viril como proibida, a saboreei com minhas línguas. Senti minhas mãos, que antes estavam necrosadas, toquei em tudo, arbustos, frutos, insetos, árvores e animais. As margaridas, antes murchas, se renovaram. Encontrei em meu caminho pássaros, voavam ao meu redor e os via cada vez mais perto, pousaram em meu braço e me ensinaram a cantar músicas que antes não conhecia. Virei poliglota. Desenvolvi o poder da ressignificação. Dor, paixão, angústia, céu e trevas, os transformei em canto, poesia e beleza.
Em meu túmulo, juntamente aos ramos florais decompostos, havia deixado meus sapatos. Meus pés, sujos da lama que me rodeava, dançavam na terra fértil. Por terra digo mãe que ampara toda a vida. Fértil, porque dela tudo se faz vivo. Senti a textura de plantas, pedregulhos, galhos e estercos de animais. No castelo onde cresci, era inadmissível sujar os pés de estercos. Haveria de ter uma construção de pedra grandiosa para nos separar de qualquer tipo de vida exterior. Diferentemente dos filhos da cosmofobia, hoje entendo, a terra é meu anseio, e meu toque é poderoso.
Todavia, havia um meio do qual eu não havia experimentado em minha nova vida. A água lamacenta, o riacho e sua corrente. A mesma água que me asfixiava, que me paralisava. Lancei minha força perante ela, para, assim, ultimar minha desfeita a morte.
Ao me posicionar frente ao rio, a chuva iniciou-se. Como um roteiro pretensioso, o ambiente contribuía para que eu não cantasse mais. Entretanto, observei que a mesma água que caía sobre o riacho que me amedrontava era a mesma água da corrente que levava saciedade à sede dos animais que tanto me agradava conversar, amiga das plantas que renascem e a mesma água que forma a lama onde danço.
Olhei para cima, abri minha boca e bebi da água da chuva. Ao me satisfazer, olhei para o riacho e os peixes me chamavam. Sentei na beira do riacho e coloquei meus pés sob a água. Me disseram que gostariam de me ensinar a nadar. Como uma sereia, entrei na água lamacenta. Contudo, não ficaria mais imóvel na espera de me desintegrar junto a natureza, mas segui a correnteza em movimento juntamente com os peixes e me integrei a ela.
Dessa vez, estava solta pela água, a correnteza era meu suporte. Acompanhada pelo cardume eu finalmente ri. Enxerguei a beleza. A pressão da água não estava mais me dilacerando, mas sim me tirando da inércia. Ah, se minhas irmãs, filhas, tias e avós soubessem, se apenas se permitissem o verdadeiro prazer, se apaixonariam pela escrita e teriam seus filhos com a natureza.
A chuva cessou. Me arremessei para fora da água. A partir da correnteza encontrei um abrigo que poderia chamar de moradia. Encostei em uma árvore à beira do rio e observei novamente a serpente que me rodeava. Porém, dessa vez, com outros olhos. Agora, eu enxergava.
Resplandeço de alegria, me tornei autônoma acerca do meu próprio pensamento, documento tudo que descobri e experimentei. Estava cega e esperei enxergar o amor verdadeiro através de Hamlet. Até o momento em que o veneno da serpente transformou-me de “Dedo-da-morte” em “Dedo-de-vida”. A natureza é o meu céu, nunca tinha visto nada tão deslumbrante, gracioso e potente. Aqui o Éden nunca deixou de existir, não há pecado original, não há culpa feminina. O amor verdadeiro está no meu matrimônio com a natureza. Seja com papel e caneta ou pés na lama, deixo nesta terra o meu rastro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CIXOUS, Hélène. O riso da Medusa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2022.
TIBURI , Marcia. “Ofélia morta: do discurso à imagem”. Revista Estudos Feministas, [s. l.], 2010.
Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-026X2010000200002
