Deamus - por Elisabeth Passos
Deamus
("Deamus" é uma forma conjugada do verbo latino "deamare", que significa "amarmos" ou "amemos" no contexto do subjuntivo. Em latim, "deamus" é a primeira pessoa do plural do subjuntivo presente, usado para expressar desejo ou possibilidade. Então, "Deamus" pode ser traduzido como "que amemos" ou "que possamos amar".)***
Eu gritei, mas a minha voz não saía... Eu tentei olhar, mas percebi que o meu rosto estava coberto, o tecido me sufocava, mal conseguia respirar. Enquanto tentava buscar o ar, também buscava formas de fugir. Usei toda a minha força física, lutei contra aquele que sobre mim se fazia inumano, lutava contra aquele que me cobria. Meus olhos lacrimejavam, e eu resistia com bravura. Toda a luta que podia existir, estava ali presente entre o chão frio de pedra e aquele que me massacrava. Minha resistência queria romper com todas as leis da Física. Nesse mundo natural, eu não resisto, nem no mundo imaginário eu podia resistir. Meu corpo doía. Meu desejo de fuga beirava o de morte. O pior era o fato de que esse desejo se tornaria minha companhia no tempo que se seguiu. Nunca poderia dizer que o ato cometido foi feito por um animal, há razoabilidade, uma lógica que os homens cheios de razão parecem extinguir quando lhes convém. Por isso, cobrem as mulheres. Por mais que lutasse, estava presa... Até que não estava mais ali. Esse ser fez-se indigno, apesar de muitos dizerem e acreditarem que é um deus ou último pacote do biscoito.
***
Levei muito tempo para compreender o que tinha acontecido e somente consegui com a ajuda de minhas irmãs, Esteno e Euríale. Hoje, quando vejo o mundo dos homens, percebo que há um medo do que não conhecem, do desconhecido, do inenarrável, do incompreensível, e tudo que é inerente ao ser feminino: falar com o olhar, menstruar, ter uma vida dentro de si e amar. Nunca entendi por que os homens fazem isso com as mulheres, que força é essa que decide tomar algo que não lhes foi dado ou permitido ser tocado? Que destruição é essa que levam consigo? Como justificam suas ações? Infelizmente, sabemos que é da pior forma possível. Perdoem aqueles que buscam não errar, mas eu sofri. Nunca mais serei quem eu era. E não suporto ouvir: ela provocou? Então, eu sou culpada? Culpada de quê? De me permitir escolher não ser deste, daquele ou de ninguém.
Como os instintos dele não pudessem ser controlados? Que poder esse que eu tinha de torná-lo descontrolado? Essa força externa que os impulsiona descontroladamente somos nós? Eles não têm controle sobre o seu eu. São as mulheres que lhe tiram do eixo. E, durante a existência humana, num espaço-tempo sem início e fim, são as mulheres mesquinhas, maldosas, interesseiras, invejosas, ardilosas, odiosas, por serem o que são, mas também podem ser bondosas demais, úteis donas de casa, recatadas, com aparência impecável para não desagradar, cuidadoras invisíveis do lar, não se pode mostrar o esforço de ser simplesmente mulher. Podem ser também interesseiras, descompensadas, faladeiras, passionais e frívolas. Eu realmente não compreendo nada disso, porque nada faz sentido quando retiramos todos os véus e passamos a olhar mais de perto, que reflexo aparece? Mas, eles tinham uma resposta básica pronta: a culpa, seja de que tipo for, e principalmente a do pecado original, é única e exclusivamente nossa, haja vista ser nossa responsabilidade colocar todos os seres de que sexo, gênero, tipo e personalidade que for nesse mundo, dos psicopatas aos sãos. Todos são nossa responsabilidade. Esse fato nos persegue.
Fui mais uma vítima e agora posso contar e escrever o que de fato aconteceu. Farei muitas perguntas cujas respostas não conseguirei dar. Muitas falaram por mim e outras ainda estão por falar. Nas minhas muitas versões de mim, eu me liberto, e gero força a todas as que estão por vir.
Em pleno século XXI, ousam dizer a verdade. Fui violentada contra a minha força, por um “deus” reincidente. O histórico pregresso o condena, aliás, a família toda, mas não há quem lhes atribua crime algum, pois são protegidos na atemporalidade. Mulheres bonitas eram suas vítimas preferidas e, segundo os acusados, os delitos foram cometidos porque outras mulheres o solicitaram. Todas, invejosas, tinham inveja de minha beleza e de Cassiopeia. E, nós duas, é importante destacar que fomos punidas. A língua de Cassiopeia foi cortada, provavelmente, para que se calasse, e o meu foi imbuir-se de um horror tão terrível que ninguém sequer olharia para mim. Só que eu, continuo sendo eu, antes e após o uso do véu.
Muitos pensadores, da antiguidade à contemporaneidade, questionam a “verdade” dos fatos. A “verdade” de fato pode ser construída narrativamente, isso é muito comum. Cada um possui a sua versão dos fatos e, seja qual for a narrativa, em certo sentido, são “verdadeiros” para quem os conta. Há a discussão em torno da verossimilhança pelos estudiosos. O aproximar-se da verdade pode ser um tiro na culatra, porque muitos renegam essa proximidade. Não cabe a mim discutir esse pormenor neste momento. Porém, é sabido que o crime de estupro apresenta marcas físicas, roxos, machucados e feridas que no físico não se podem negar após o ato. As marcas profundas são apenas minhas e a minha fala é quem o atualiza constantemente. A minha memória terá sempre essas marcas. Insinuam muitas vezes que pode ser consentido, que a mulher pode agir contra o homem. Eu e muitas mulheres somos provas de que a luta corporal contra um homem, na verdade, visa apenas demonstrar que a nossa aversão ao fato foi até o final. Marca a nossa posição de que fomos contra, fomos violadas. Quando, em muitos casos, não nos compartilham com os amigos, como se fôssemos pedaços de carne, passíveis de serem devoradas, usadas, mastigadas e cuspidas. Enfim, lutei, lutei, lutei muito e fui violada. Lactâncio interpretou corretamente o testemunho. Poucos lhe deram ouvidos. Muito poucos, e os anos se passaram, mas eu estou aqui relatando o que se passou para que ninguém esqueça.
É, por isso, que irei narrar minha história a partir desse fato. Não será uma tarefa fácil. Essa história envolverá outros personagens, meus antepassados, meus sucessores, meus caminhos e descaminhos, minhas vitórias e minhas derrotas, assim como o que há no meio disso tudo.
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Não tenho escamas no corpo, nem dentes horrendos e a transformação dos meus cabelos ou a mudança do meu estado corporal e consequente afastamento do mundo irreal, me tornou parte de uma realidade que poucos querem saber ou ver. Não sou abjeta, nunca fui, nem poderia ser. Não sou mais bela aos olhos daqueles que não podiam ver ou chegar a compreender o que eu era. No frio templo de Minerva fui calada, morta, mas, renasci e me reescrevi jamais com o olhar daqueles que me destruíram, passei a me ver como parte de tudo aquilo a que ninguém quer dar o devido significado. Não permiti que ninguém me determinasse com a fala de suas bocas. Tomei a minha palavra, porque era só minha.
Minutos após o ato, retirando o véu e descobrindo o meu rosto, tentando sentir novamente o meu corpo. Olhei ao meu redor e vi Esteno. Esteno tinha o olhar triste, chorava por mim. Quando chegou, o fato já havia acontecido. Esta mulher era como eu, dizem que nasceu desta forma, assim como Euríale. Estranho imaginar como isso seria possível. Mas, era real. Górgonas faziam parte do mundo e, no Ocidente, eram associadas ao horror. As pessoas temem as serpentes. Há toda uma ideia criada em torno desse animal que não faz muito sentido, são tidas como perigosas, frias, pegajosas. Mas, nem todo lugar tem essa relação odiosa com as górgonas. Eu agora fazia parte dessa nova família.
Pouco sabíamos sobre Euríale, já Esteno havia viajado por terras distantes, tido outras experiências, ela dominava outros idiomas e me convenceu de que eu não deveria ficar ali próxima daqueles que não compreendiam quem nós, realmente, éramos. Devíamos partir o mais brevemente possível. Esteno não havia sido estuprada, mas a imagem que faziam de mim e de minhas novas irmãs era surpreendente. Havia algo extremamente inusitado, inovador. Diziam que nos viam como monstros e, ao nos olhar, a morte chegava instantaneamente através da petrificação. Por esta razão, somente seríamos acessíveis por imagens refletidas no espelho. Tornar-se pedra? Agora não é o momento de falarmos desse assunto. Talvez seja simplesmente um problema do reflexo, quem distorce é quem vê.
Eu acredito que o único monstro difícil de se olhar é a si mesmo. É horrível encarar os próprios defeitos, assumir os seus erros, dizer que estava enganado. O “eu” é a imagem mais difícil de se ver. Essa necessidade imperiosa de se refletir, talvez seja para criar uma máscara de si que revela ou esconde. Difícil é quando os outros ditam essa imagem. É a nossa fala quem deve expressar. Isso vale tanto para homens quanto para mulheres, seja em que idade for.
De fato, eu não mais poderia ficar naquele lugar, onde tudo que deveria ser considerado sagrado e respeitado fora maculado. Então, decidimos que o melhor para mim era partir daquele lugar. Esteno decidiu me levar para um lugar completamente novo, que nem ela mesma conhecia, mas que tinha certeza de que seria muito bom para mim. Tivemos de fazer uma longa caminhada do Templo de Atena até o local mais próximo ao mar, onde iríamos, com uma pequena embarcação, até uma ilha mais próxima, nos encontrar com um de seus discípulos. Esteno tinha algumas moedas de ouro, o que permitiu que nossa viagem fosse possível e o mais discreta possível. Infelizmente, aqueles que estiveram presentes no ato onde eu nasci já estavam agindo com um senso de impunidade, inerente àqueles que acreditam que tudo podem fazer sem nenhuma consequência.
Esteno me contou que me levaria para um lugar distante onde eu poderia viver com calma, em paz, sendo quem eu era, sem me preocupar com o que os outros pensam ou com o que pudesse acontecer comigo. Não estava em condições de questionar nada. Deixei-me levar, porque me sentia segura. Minha irmã me dava segurança e eu não estranhava nada, agora partilhava sentimentos com uma estranha que me pareceu sempre estar próxima a mim. Era como se fôssemos irmãs desde sempre. Assim, com o auxílio de um de seus discípulos, partimos para desbravar o meu destino desconhecido.
Não tinha nenhuma certeza sobre o que ia acontecer lá. Mas não tinha como questionar nada, o lugar de onde eu vim se mostrou o mais inseguro para se estar. Pela primeira vez, entendi o que era o medo de ser mulher e pensar que em lugar nenhum estaria segura. Na verdade, naquele momento somente me sentia segura na presença de minha igual. Somente no conforto dela encontrava um pouco de paz. Há memórias de infância que não quero retomar, memórias de uma mãe que espero não ter de violar ou saber que fora violada como eu, prática comum nos homens da minha terra que somente hoje sei que agem assim e acreditam que é normal. Não posso dizer que todos são assim. Mas há ecos que o dizem: “ela era bonita demais”, “a roupa que usava...” Eu não entendo como homens que valorizam a razão agem como se somente uma natureza descontrolada pudesse os guiar.
A primeira parte da viagem foi extenuante. Eu ainda estava muito machucada e a geografia grega não favorece que uma mulher carregue outra muito machucada. Levamos um dia e meio para chegar até o local. Descansamos uma parte da noite e fui forçada a comer. Esteno me preparava beberagens, conhecimentos de magia que pertencem às mulheres desde que passaram a povoar a terra, para fortalecer meu corpo e dizia também para fortalecer meu espírito. Eu a tomei sem interrogá-la porque não tinha condições para fazer nada diferente. Nesse primeiro dia, imagens e sensações passavam de forma repetida e contínua na minha mente. Vergonha, medo, terror, ódio, vingança, e, por fim, morte, esses eram os pensamentos recorrentes e em círculo que me passavam, como a cobra comendo o próprio rabo. Estava de fato desorientada, descontinuada, quebrada.
Mal podia sentir meu corpo...
A viagem era longa.
Enfim, conseguimos chegar ao ponto combinado. Lá nos encontramos com Adejola; fiquei espantada com a aparência daquele homem. Alto, de pele escura, preta, nos encarava sem medo, corpo forte e destemido. Eles falavam uma língua que eu desconhecia. Esteno me tranquilizava e, assim, começamos a primeira parte de nossa viagem marítima. Durou algumas horas até que chegássemos à ilha. Lá, sim, desbravaríamos novos mares, até mesmo para Esteno. Nunca tinha entrado em um navio como aquele. Começava tudo do zero. Esse era meu destino. Enfim, quando as bebidas faziam efeito e eu conseguia descansar, era um alívio.
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Desbravar novos mares não era fácil, ainda mais naquela época. Na embarcação, graças às moedas de ouro de Esteno, havia o mínimo de conforto. Uma mudança mais do que às pressas, mais do que súbita para que pudéssemos chegar rapidamente a essa nova terra. Eu ficava a maior parte do tempo no que seria equivalente, hoje, a uma cabine. Com o tratamento de Esteno, agora as feridas físicas já começaram a cicatrizar, as dores do corpo diminuíram, porém, as da alma não. Para essas, Esteno me dizia que o remédio ainda iria chegar. Eu duvidava.
Após uma semana de viagem, já podia sentir a distância do conhecido, aquele mar que refletia o azul celeste e escondia em águas profundas o sangue de muitas mulheres. Sentia um misto de alívio e receio, estava a caminho de uma nova terra, criei vínculos com uma irmã que me conheceu no dia em que me tornei uma igual. Nenhum ritual, eu pensava, seria capaz de criar uma irmandade tão forte em tão pouco tempo. Além disso, eu temia que algo de ruim acontecesse. Instintivamente, sabia que aquele que me violou tinha conhecimento de minha partida, mas decidiu que não devia se preocupar, quem era eu e pouco se importava com Esteno, afinal éramos aberrações. Atravessamos os mares conhecidos na atualidade, como o Mediterrâneo, o Tirreno, passamos pelo estreito de Gibraltar até chegar ao Oceano Atlântico.
Nem todos os dias tivemos mar de almirante, nos dias de tormenta parecia que as fúrias queriam se comunicar conosco. Era estranho, porque meus ouvidos e minhas sensações cada dia mudaram, na verdade, se intensificaram, eu começava a sentir tudo de uma forma diferente, muito incomum. Eu sentia meu corpo mudar, o olhar de Esteno me confirmava as minhas suspeitas e cada vez menos eu queria conversar. Minha irmã não me cobrava nada, pois sabia que não era o momento. Tudo deveria acontecer no momento certo. À noite, saía do meu estado de latência e olhava o céu, não era mais o que eu conhecia e a sua beleza me confortava em certo sentido. A novidade era um acalento por vezes. Mas seria mais do que isso.
Quando estávamos mais próximos da costa onde íamos atracar, eu ouvia sons de tambores, cujo ritmo falava com o meu corpo sem que tivesse o menor controle sobre isso. Não esquecia nada do que me havia acontecido, nem teria como. As beberagens de Esteno não foram tão eficientes como gostaríamos que tivessem sido. Não era para eu saber, mas essa transformação me permitiu ter certeza. Havia um fruto que me lembraria para sempre daquilo. As beberagens me ajudaram a curar o corpo físico, mas não expeliram “o mal” que estava em mim. Esteno não queria matar o sobrinho ou sobrinha, de alguma forma ela sabia que a criança seria minha única companhia. Ela apenas me levaria até o local. Lá, eu permaneceria só. Esse era o meu novo destino traçado por suas mãos, fugindo daqueles que me odiaram.
Em uma das paragens, o servo que nos acompanhava reportou-se com reverência à minha irmã mais velha e trouxe notícias de Euríale, que eu nem conhecia, mas que em breve seria uma das pessoas mais íntimas daquilo que eu nem mesmo conhecia.
Durante o percurso, fui percebendo várias transformações no meu corpo. O manto que me recobria agora me permitia olhar de forma diferente para mim e para os outros. Não era verdade que eu não podia ser vista ou que era maléfica para quem se atrevesse a me olhar. Outras mulheres também são vistas nessa forma em muitos lugares e mundos diferentes, pois são tidas somente para serem usadas, execradas e bodes expiatórios, evitam males que ninguém quer revelar. Certa vez, pediram para adjetivar as mulheres, esqueceram apenas de remarcar que adjetivos podem ser positivos. Ardilosas, perigosas, mentirosas, interesseiras, quase não se ouvia nada de bom. Nem triste pude ficar, porque não há tempo para isso, quando te veem como monstros. Infelizmente, muitas mulheres reforçam o que se diz de negativo sobre mulheres. Todo esse contexto acaba justificando, injustamente, o que se faz com uma mulher. Eu mesma o sofri e não desejo que se reproduza com quem quer que seja. No seu ofício, muitas protegem as que não deveriam se sacrificar. Era esse o repúdio do olhar que me dirigiam, eu não era má. Existiam aqueles que eu escolhia não matar, porque sempre pude escolher, nunca me deixaram falar e agora vos falo e nunca mais me calarei, especialmente, em uma terra com muitos falares.
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Uma pequena embarcação nos levou à terra firme e, de lá, partimos. Eu não entendi muito bem por quê. Quando pisei naquela terra de cor avermelhada, senti a força que emanava daquele chão. Meu corpo estremeceu e meu ventre mexeu, era como se os sons dos tambores tivessem feito ressoar todo o meu corpo, me enredei naquela terra. Soltei meus cabelos e me permiti sentir o vento, o cheiro e o gosto do ar. Olhei aquela vegetação diferente, notei especialmente uma árvore com o tronco extremamente largo, robusto, grande, alta e os galhos com pequenas folhas. A vegetação não muito alta nem baixa escondia animais que eu jamais tinha visto e se aproximavam de mim. Todo o temor que sentia se dissipou.
Olhei Esteno e ela discretamente permitia que eu visse os seus olhos tranquilos e o sorriso com a certeza de que eu ficaria bem. Adejola conversava ao pé do ouvido de minha irmã e rapidamente se embrenhou mato adentro. Tive a certeza de que ele era nativo daquela região. Sentei-me com minha irmã em uma rocha e, depois de muito tempo, senti uma paz, que se comunicava com meu ventre. Eu sei, tinha sido violada, deveria estar revoltada e o meu desejo naquele momento estava vazio até de mim. Mas, de algum modo, eu sabia que tudo seria diferente e eu não queria pensar em nada naquele momento. Sabia que dentro de mim jazia algo que renasceria e seria muito especial. O que fizeram comigo nunca, jamais, em hipótese alguma deveria acontecer com quem quer que fosse. Assim, começava a matar meu desejo de morte, e crescer o meu desejo de ser.
Esteno me disse que tínhamos que esperar o retorno de seu discípulo e, então, me explicou sobre o lugar onde estávamos. Aquela terra era muito especial, porque lá não havia naquele momento distinção entre homens e mulheres, aliás, em muitos locais naquele continente eram as mulheres as detentoras do poder de decisão. Os homens ali não viam o que não entendiam com temor, mas reverenciavam o poder da criação, especialmente o poder feminino de gerar, gerir, cuidar, pois é da junção dos opostos que brota a vida. O que o Ocidente via como monstruoso lá era divinizado e eu não devia temer olhar algum, pois a sabedoria vinha do que nos constituía como éramos.
Aqui não existia monstruosidade, mas divindades, éramos parte da natureza e, com essa informação, devíamos comungar. Na verdade, estávamos em simbiose com a natureza. Podíamos falar com a terra, com o mar, com as árvores, com o fogo. Algo que, em outras regiões e tempos, mudaria.
Na esperança do futuro, a mortandade se faria...
Nós, mulheres, mais uma vez vítimas, seríamos apedrejadas, julgadas, e mesmo queimadas por isso. Fogueiras sem eira nem beira. Nesse tempo que o colocam contra nós, devemos mudar a tessitura ou textura.
Neste lugar distante, também banhado pelo mar, que refletiria a mesma luz solar, era diferente. Nós seríamos consultadas para nomear o que não se conhece, sobre o melhor momento para colheita ou mesmo para dizer quando guerrear, permanecendo assim até que se mude. É claro que trabalhamos a terra, que cuidamos das crianças, mas não éramos invisibilizadas na decisão de casar-se. Muitas mulheres escolhiam quem seriam seus maridos e eles se sentiam orgulhosos para se tornarem seus companheiros. Depois de muito tempo, eu sorri e pela primeira vez senti fome de verdade. Esteno me disse: já já vamos almoçar.
Adejola retornou com um grupo de pessoas. Eles me viam de forma diferente, como jamais tinha sentido, mesmo quando as pessoas iam ao templo adorar Athena, nunca percebi aquele sentido. Cumplicidade no olhar é uma comunhão conhecida por poucos, pois sem falar a mesma língua éramos capazes de nos entender. As mulheres se vestiam somente com tecidos com panos amarrados ao corpo, eram tingidos com cores semelhantes às da natureza e possuíam grafismos únicos. Adornavam os seus cabelos com tranças e alguns itens de metais bem bonitos. Os homens também estavam vestidos de tecidos amarrados na cintura, alguns traziam armas e bolsas de couro animal com água e suprimentos. Muito felizes, hoje, eu reconheço que me disseram: E᷂káàbo, o que significa “seja bem-vinda”. Os tambores que ressoavam eram da tribo onde moravam e seria também a minha morada. Orire ti de. A sorte chegou! Ilẹ wa yoo ọlọrọ. Nossa terra será rica. Ko si ohun ti yoo sonu. Nada vai faltar. Esteno, finalmente, sorriu e me beijou. Ao olhar, Adejola fez o mesmo e percebi que havia muito mais entre eles.
Aquele grupo de pessoas, cantando e dançando com um vigor nunca visto, me reverenciavam e me agradavam de todas as formas. Fui acompanhando-os até a cidade onde viviam. Meus olhos refletiam o encanto de ouvir de perto os tambores e sentir a presença da vida. A partir desse momento, eu passei a falar outras línguas: com o vento, o mar, além das pessoas que estavam ao meu redor: magia; no futuro, bruxaria?
Ao chegarmos na tribo, havia uma organização muito grande preparando várias atividades. Naquele dia iria ocorrer uma grande festa. Eu deveria estar preparada para isso? Esteno já sabia, porque Adejola já havia lhe dito.
Eu fui levada às responsáveis por tudo o que acontecia na tribo. Elas tinham marcas no rosto muito diferentes, cortes específicos ou marcações que indicavam o seu pertencimento à tribo. Essas mulheres estavam em um lugar especial para os habitantes dessa região. Lá me deram mais bebidas feitas de ervas, gostos e cheiros diferentes impregnavam o ambiente. De algum modo, minha fome se dissipou e fui posta em um estado de inércia que eu nunca imaginei que pudesse existir. Essa viagem seria somente minha.
As fronteiras se romperam e eu pude saber de tudo o que eu não queria: presente e passado se tornaram um só. As emoções não se dissiparam, ao contrário, se intensificaram a ponto de eu codificar cada centímetro do meu corpo, do corpo delas, do quarto, onde eu estava, o que eu fui, o que eu sou e o que eu serei. Via que elas riam quando entreabria os olhos. Me tornei ouroboros, o meu destino se cumpriu? Nunca poderia dizer isso, porque isso somente pertence àqueles que temem a morte, ou qualquer transformação na vida. Eu não temo mais. Nesse momento, me comunicava com o feto que será a minha filha, cujo nome ela escolheria quando nascesse. Em verdade, eu vos digo, sabeis a verdade e ela os libertará...
Me tornei o que Athena desejava? O que para ela era negativo, neste outro lugar, e mesmo para os gregos, era positivo. O mito grego e muitas mitologias antigas e de outras épocas e regiões: eu era o ouroboros, essa palavra de origem grega, que pode ser escrita das seguintes formas: oroboro ou ainda uróboro; em grego é Οὐροβόρος e significa o que consome a cauda (οὐρά: 'cauda' e βόρος 'consumo'), e no plural seria Ouroboroi ou Uroboroi. Poderia ser uma serpente ou mesmo um dragão, sua origem é mais antiga, daquele Oriente místico desde sempre temido, criado e usurpado pelo Ocidente. Esta serpente ou dragão morde a própria cauda, torna-se um círculo, indicando, além do eterno retorno, a espiral da evolução, a dança sagrada de morte e reconstrução.
Assim, após a minha chegada a estas terras desconhecidas por mim, gostaria de dizer que essa história nunca mais se repetiria, que eu e minha linhagem estaríamos a salvo do que aconteceu comigo. Infelizmente, não poderei dizer isso. Muitas lutas e batalhas, entre corpos, nos corpos, na mente serão travadas para que se possa ecoar essa voz. Alguns dizem canto, mas só para esconder o que realmente é. Do lugar de onde parti, a serpente será associada a todo mal, mesmo quando simbolizada à saúde. O conhecimento que transborda será vetado a todos aqueles que subvertem a ordem que se cria. Silenciaram mulheres com seu próprio canto, dando o nome de poesia. Isso irá perdurar, mas sempre existiram aquelas cuja linhagem direta fala mais alto e berram, ecoam e se multiplicam. Como em uma tática de guerrilha, dirão: não somos loucas, não somos histéricas, fomos vítimas e não nos permitem descansar após a violência. Por vezes, queremos realmente cantar, porque é preciso respirar, a dureza da vida mata aquilo que nos permite nos elevar. Viver dessa forma é só sobreviver, esse estado de guerra não nos pertence, foi criado para nos acuar. Não quero ser acuada, calada ou sufocada. Posso imaginar quantas mais se sentem assim, desde a infância, nesse mundo confuso, esvaziam palavras plenas, as tornam sem sentido por seu uso contínuo e sem critério nas situações indevidas, como amor, cuidado e compaixão.
Quando tudo se conectar, ninguém estará preparado para filtrar. Várias doenças vão surgir e nós podemos falar. Temos tanto a dizer, mas o mais difícil será fazê-los sentir, porque o feminino nunca foi frágil, nunca foi tolo, nunca foi inútil. É preciso equilíbrio e isso foi retirado do mundo quando se percebeu que para se ter o que não te pertence é preciso subjugar o outro. Por mais que se grite, berre aos quatro cantos, é difícil fazer as pessoas entenderem. Eu agradeço a cada um que o faz, porque todos estamos de fato interligados.
Enfim, é melhor eu continuar.
É especialmente no Ocidente que se tem uma visão negativa da serpente? Esteno, Euríale e eu poderíamos dizer que sim, mas nem em todo lugar foi assim. Posso falar agora do que não vivi, e viverei porque já sei. No Ocidente, a serpente é culpada de permitir que se coma do fruto proibido. O conhecimento é sempre proibido porque liberta, liberta em todos os sentidos, te livra de amarras, que nem existem, apenas nós cremos nisso. Em muitos lugares, circundam o mundo? Desde sempre o mundo foi redondo, e em alguns casos somos a razão de sua destruição. Nossa! Quem dera pudéssemos fazer isso, várias vezes, mas infelizmente não.
Assistimos a atitudes terríveis, porque nos falta habilidade no uso do que nos torna mais fortes. Sinto muitas de nós perdidas, porque a vida desorienta, e é difícil parar e saber que na nossa circunferência nós somos o centro. Os outros não são sóis, porque a luz também é nossa. Na verdade, vamos deixar-nos enganar ou, na força física, perdemos aquilo que nos diz quem somos nós. A mulher não tem arte da sedução, disseram isso para nós.
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Òsùmàrè ó dé wa lé Òsùmàrè
Ó dé wa lé o ràbàtà, ó dé wa lé Òsùmàrè
Ôxumarê ôdeualê ôxumarê
Ôdêualê rabatá ôdeualê ôxumarê
O Deus do arco-íris (Òsùmàrè) chegou à nossa casa,
Deus do arco-íris. Ele chegou à nossa casa e é imenso
(gigantesco). Ele chegou à nossa casa, O Deus do arco-íris
Quando acordei, estava pronta para as festividades e Dan me disse seu nome. E eu estava de volta às origens de tudo.
Com Dan, minha filha, ela era mais especial do que eu podia imaginar. Chamo-a de filha, por preferência, mas não posso dizer o que se pede. Metade vive como mulher, metade como homem. Não há distinção nisso, os dois existem em cada um de nós, devemos fugir às convenções, pois já não nos cabe mais. Essa necessidade de determinação, macho, fêmea, homem, mulher que imputam à natureza. Ignoram o fato de que essas barreiras não existem nem devem existir. Na verdade, isso é a mania humana de controlar tudo, organizar tudo, classificar tudo para entender um mundo que não é para ser ordenado nos nossos moldes, mas muito mais para ser sentido.
Ori mais xá (ṣa), oriṣa, “aquele que faz a cabeça” é o nome dos divinizados desse povo que será conhecido como yorubá. Dan se imortalizará e se transmutará em terras de além-mar. Tornar-se-á Oxumaré, um oriṣa, orixá.
Dan se tornará muito importante nessa região, atravessará os tempos e mesmo continentes. Várias histórias serão contadas para explicar o que não se entende e é fácil de compreender. A narrativa que se conta enaltece e diviniza o que será arco-íris e o que circunda o mundo. Talvez o que não deva ser tocado, sem permissão nem conhecimento. Esses répteis possuem peçonha, de fato, é uma proteção. Nós mulheres criamos diversos mecanismos para nos proteger. No mundo, contudo, más avaliações ou a reação dos outros é sempre invisível. Viver com medo é a nossa opção? Prefiro acreditar que não. Prefiro acreditar na nossa coragem.
Em outras terras, seu nome será Oxumarê, a forma como chegará será tão terrível quanto a que me fez partir. Retirados à força de sua terra natal, coisificados, mas, ainda assim, onde foram levados, plantaram raízes.
Rezam cantos nessas terras distantes que, por seis meses, torna-se homem, e nos outros seis meses, mulher. Como mulher, é associada à serpente peçonhenta; como homem, ao arco-íris. Há razões para essas associações, mas opto por dar ambos ao homem e à mulher, pois ambos são dotados de conhecimento e ambos têm sensibilidade. Ser emotivo não deveria ser um defeito. Para muitos homens, chorar é defeito, e mulheres que se emocionam também são defeituosas. Por que odeiam a emoção? Por que odeiam chorar? Chorar é necessário, transbordar é necessário. Quando vivemos represados, adoecemos enlameados e não conseguimos entender a razão disso. O que seria muito fácil se pensarmos que a água compõe todos os seres humanos. É um regulador natural, a emoção é isso. Nos regula nessa vida. Uma vida que não deveria ser feita somente para essa luta diária que é sobreviver. Essa guerra produzida é um recurso econômico de dominação, justificado ao longo das eras como sinônimo de evolução e progresso. Aliás, muitas atrocidades se justificam em nome do progresso e da evolução, e a todo tempo somos ameaçados com a nossa própria destruição. O fim dos tempos é todo dia. É uma agonia viver assim, bastava chorar de vez em quando e ninguém precisar se envergonhar disso.
Oxumarê será invejado por sua beleza e cultuado como serpente na natureza. Em mim, resta saber que ela/ele sou eu, e também todas vocês.
Minha irmã conversava com outras mulheres da tribo, Adejola estava sempre perto. Esteno e Adejola partiram tão logo pressentiram que eu estava bem.
No meu primeiro ano na aldeia, aprendi o idioma deles.
Quando chegamos ao novo continente, ganhei novas roupas e, com o tempo, viriam adereços que realçavam quem eu era. Nossas cabeças não deveriam mais permanecer sempre cobertas e os tecidos que usávamos não eram grossos, um pouco engomados, os tons eram os mais variados. Por vezes, os amarrávamos à cintura; outras, na altura dos seios. Passei a usar várias joias, anéis de ouro e prata e braceletes no braço. Eram como serpentes que se enroscavam em seus músculos. Os cabelos trançados eram tão belos, possuíam movimento e desenhos que eu raramente decifrava, somente admirava por serem tão belos. Tudo dizia quem eu era, tudo dizia quem Dan era, tudo dizia quem Oxumarê era.
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À Medusa
Eu, Athena, defendi o que acreditava ser o certo. Rompi com as mulheres porque, segundo os relatos, nasci da cabeça de meu pai. Hoje, peço perdão à Medusa porque descobri o que não queria saber. Sobre a minha mãe, a chuva de ouro também recaiu. Foi muito difícil saber disso. Mas mais difícil foi assumir o meu erro ao ter coberto o seu rosto. Esse véu que coloquei em ti macula a minha pureza, meu ser. Confesso! Sou culpada, esse horror é meu; mas o pior ainda estava por vir. Não foi a ti que transformei, foi a mim mesmo. Deformei sem hesitar a sua imagem. A minha língua tornou-se viperina e ainda há de se transformar. Talhei seu ser da pior forma possível e lhe dei poderes que somente foram usados contra você e pelo temor do outro. Se tivesse tido conhecimento disso antes, faria tudo diferente. Nesse mundo em que só há falos e falastrões, deixei a minha fala a mais masculina e odiosa possível e fiz isso contigo. Até mesmo da virgindade quis me vangloriar. Esse é o sonho dos homens, de encontrar a pureza em um sexo intocado. Essa “santidade” só distancia as mulheres de sua própria divindade, cujo sexo foi feito para ser desfrutado. A magia dele nos permite gerar seres fortes e bravos como nós e como os outros.
Queria muito saber como está a minha mãe. Essa que nunca pôde me fazer um afago, brincar comigo, me proteger, me amar como ninguém mais saberia amar. A humanidade, tola, busca o amor nos braços de um outro ser e desconhece que a verdade se encontra onde se originou. Se eu disser que toda mãe é assim, seria mentir. Mas antes de condenar, é preciso saber o que lhes aconteceu. E agora não quero criticar ninguém. Quero apenas dizer a verdade, pelo menos a mim mesma. Olhando diretamente em seus olhos, Medusa, e sem medo de paralisar, porque irei continuar bravamente a existir e irei procurar aquela que me gerou. Essa bela mortal foi mais uma vez irrigada e punida por meu pai. Os frutos das águas de Zeus ou de Poseidon foram: Perseu, Pégaso e Crisaor. Provavelmente existam outros que eu não vou listar aqui. Todos se aliaram ao meu pai, orgulhosos de quem ele era. Eu, uma mulher, também me filiei ao meu pai, ao meu irmão, ao meu tio, e a mulheres que fazem a mesma opção, negando quem realmente são por uma aceitação pérfida, sórdida, eu digo hoje. Mas já fui uma delas.
Descobri a verdade através de sua irmã, Euríale. Pior vingança não poderia existir. O destino tem artimanhas ardilosas. As marcas que Euríale leva são conhecidas por todas nós mulheres, a sabedoria da existência na condição feminina. Ou maturidade? É importante lembrar que os homens odeiam isso. Odeiam que não possam contar lorotas infantis a quem irá gargalhar dessas bobagens.
A chegada de Euríale até mim foi surpreendente. No meu seleto culto e ambiente ascético, começaram a aparecer várias serpentes, assustando tanto as minhas sacerdotisas quanto os devotos. Aquilo era muito estranho. Corriam pela cidade vários burburinhos sobre a chegada de mau augúrio. Não quis dar ouvidos. Mas um dos soldados que protegiam o templo foi morto pela picada de uma serpente extremamente venenosa. O pânico se instalou, então, me fiz presente. E, para meu choque, lá estava sua irmã, lindamente vestida com uma túnica azul e adornos acobreados, e uma narrativa inóspita demais para mim.
Agora, busco uma senhora maneta e de belos olhos azuis. Se Cassiopeia pagou com a língua, a minha mãe, poetisa, pagou com a mão. Maldita beleza que castiga as mulheres. Ao que parece, todas amaldiçoadas somente por existirem, porque a ausência desta admiração pelos homens não as protege do que pode vir a acontecer. Dessa revelação surgiu uma união que os deuses homens jamais poderiam pensar em vir acontecer. E quem saberá o que lhes poderá acontecer? Aguarde nossas notícias...
Prólogo
Os cabelos são a moldura do rosto? Meus cabelos eram lindos e, após o que aconteceu, se tornaram um manto. Um manto de proteção. Me fizeram forte e corajosa, destemida. Não tinha mais que agradar ninguém, era assim e pronto, e quando vi Esteno e Euríale da mesma forma, pensei: “Agora sou livre”. Com as curvas libertas e amando cada pedacinho de mim.
Entranha
O véu, que jogaste em mim,
me desprendeu
Não temo mais nenhuma trama
Nem véu
Nem pureza
Para a arapuca dos zômi
Não virar zumbi,
Muito menos cobrir
Ou ter ata - duras
Que deuses me dibrem dessas
tramas
Entranhas
Quando solto os meus cabelos.
Teço um novo dia todos os dias
***
Por que eu escolhi a Medusa?
Homens e Medusa
Medusa é uma personagem mítica que está presente nos textos de Ovídio, de Lactâncio, de Ítalo Calvino, de Giorgio Agamben, dentre outros pesquisadores, escritores, poetas. Interpretaram de variadas formas o mito da Medusa. Na verdade, por vezes, partiu-se do mito de Perseu, por outras, de Medusa, constituindo-se uma tradição literária e poética que, de forma objetiva, baseia-se no horror.
Ovídio foi um poeta romano, que teria vivido por volta do ano 40 a.C., tendo sido importante no desenvolvimento da lírica latina. Foi educado para ser um magistrado, mas acabou dedicando-se à literatura e escreveu, dentre outras obras, Metamorfoses (2017). Neste livro encontra-se o mito de Perseu, que envolve não só a Medusa, mas também Andrômeda, e uma sucinta menção à mãe de Perseu, Dânae. Citaremos o texto: “Nem acreditava que Perseu, a quem Dânae concebera por ação de uma chuva de ouro, fosse filho de Júpiter” (Livro IV, 610-611, Livros V, 1; VI, 113, XI, 117).
A Medusa é associada às górgonas. Antes de sua punição, Cassiopeia, que também era uma mulher belíssima com lindos cabelos, teria sido punida pela inveja das ninfas, que teriam se queixado a Poseidon. Segundo a Teogonia de Hesíodo, seriam três irmãs: duas que desde sempre foram Górgonas e Medusa, que era uma mortal, mas teria se transformado em uma delas. Esteno viveria na atual região da Líbia e Medusa nas Hespérides, na Grécia. Afirma Hesíodo: “Gerou Górgonas que habitam além do ínclito Oceano os confins da noite (onde as Hespérides cantoras): Esteno, Euríale e Medusa, que sofreu o funesto, era mortal, as outras imortais e sem velhice ambas, mas com ela deitou-se o Crina-preta no macio prado entre flores de primavera. Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço, surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso” (1995). As górgonas eram seres monstruosos na ótica grega, metade mulheres, metade serpentes e, no caso de Medusa, seus cabelos seriam as serpentes. Essa transformação teria sido uma punição pela deusa Athena. Os deuses possuíam sentimentos, como raiva, inveja, ódio. Com Athena não poderia ser diferente. Medusa estava no templo desta deusa quando foi estuprada por Poseidon. Por isso, quando o suposto herói Perseu corta a cabeça de Medusa e a usa como arma contra seus inimigos. Ele a dá a Athena, que a usa como um broche*. Entendemos que Medusa recebe uma dupla punição.
A história se torna ainda mais complexa quando buscamos a genealogia tanto de Medusa quanto de Perseu. Sobre a primeira, quase não encontramos informações. Todavia, a história do suposto herói envolve uma trama tão horrenda quanto a de Medusa. Dânae é a mãe de Perseu. Dânae também teria sido estuprada por Zeus/Jupiter (“a chuva de ouro”), como citei no início do trabalho.
Para os gregos, a filiação era muito importante, pois a origem, a genealogia, evidenciava quem a pessoa era, sendo uma marca de sua identidade. Analisemos, inicialmente, a genealogia de Perseu: uma característica da narrativa grega acerca do destino é a sua fatalidade. Deste modo, mesmo quando se tem consciência, através dos oráculos consultados, do que irá acontecer, e se tenta mudar o destino, as ações tomadas pelos personagens o levam diretamente para que esse fado se cumpra. Havia uma profecia de que Acrísio, pai de Dânae, seria morto por seu neto. Com o objetivo de escapar desse assassinato, Dânae é posta em uma prisão (em uma torre) por seu pai. Zeus, ao visitá-la metamorfoseado em chuva de ouro, fecunda Dânae. Deste ato, nasceu Perseu, que matará seu avô, Acrísio, sem o saber (Outro exemplo de punição é o caso de Cassiopeia, mãe de Andrômaca, é mais um caso de punição. Além de perder a língua, a filha de Cassiopeia seria dada em sacrifício a um monstro marinho que ia destruir a cidade. Porém, será salva por Perseu e lhe será dada em casamento).
***
Em literatura, há uma questão complicada acerca da tradução de determinados vocábulos, tanto latinos como gregos. Esta referência é “chuva de ouro”: no caso da Medusa, a palavra usada é vitio, que significa corromper. Lucas Dias traduziu como desonrar, mas outros tradutores optaram por violar. É somente em Lactâncio, um autor da Antiguidade, que escreveu sobre a doutrina cristã, que ocorrerá uma interpretação mais direta do ato. É importante destacar que Lactâncio era de origem pagã do norte da África. Convertido ao cristianismo, torna-se o primeiro conselheiro do primeiro imperador romano convertido, Constantino. Para Lactâncio, os deuses eram metáforas dos homens, era um recurso estilístico usado na Antiguidade grega. Então, para esse autor, as moedas de ouro, que teriam sido jogadas após o estupro, teriam sido o preço que ela pagou. Trata-se do que está por trás da metáfora da chuva de ouro. Dânae teria recebido um pagamento em ouro.
A questão, enfim, é a seguinte: Perseu, filho de um estupro, não tem relações com a mãe, mas somente com o pai. Este suposto herói irá matar pessoas servindo-se da cabeça decapitada de Medusa, que teria sido punida por ter sido estuprada por Poseidon no templo de Athena.
Italo Calvino, no capítulo A Leveza, que faz parte da obra Seis propostas para o próximo milênio, retoma esse mito, tornando-o fundante para a sua produção literária. Para esse autor, deveríamos ter a leveza de Perseu que, após a decapitação de Medusa e com as sandálias aladas, domina os monstros, como metáfora para dominar os monstros da escrita. Calvino faz, inclusive, menção ao texto de Ovídio. Para este escritor, a existência é dura, e a literatura de Calvino se propõe leve. Medusa é associada à dura realidade, à petrificação ao se olhar para ela. É a dureza em si, a coisa medonha, dura que é viver. O ensinamento que Calvino retira do mito é baseado em sua literalidade. É interessante notar que Calvino busca leveza na ciência, o que é um contrassenso, dado que a base da ciência é a matéria, é a dureza. Essa leveza é a leveza do pensamento, leveza da linguagem. Há uma outra linguagem, uma linguagem dotada de peso, concreção dos corpos das coisas.
A musa de Calvino seria Perseu, a Medusa, por sua vez, o bloqueio criativo que acomete um escritor. É uma alegoria da relação do poeta com o mundo, que pode corresponder àquilo que deve manter o objeto inalcançável, próximo ao formalismo de Chklovsky. A visão da Górgona expressa objetividade, enquanto o texto literário deve ser inacessível, visto indiretamente. É preciso dominar os monstros para continuar escrevendo. “É sempre na recusa da visão direta que reside a figura de Perseu, mas não na recusa da realidade do mundo de monstros entre os quais estava destinado a viver, uma realidade que ela traz consigo e assume como um fundo pessoal” (CALVINO, 1988, p. 11)
Calvino faz uma interpretação do mito falocêntrica e patriarcal, ignorando, até mesmo, o uso desregrado da cabeça de Medusa feito por Perseu. Direciona a sua interpretação para o cuidado que este tem após a decapitação. É importante salientar que, no texto de Ovídio, Medusa dormia, e o cuidado de Perseu era para preservar sua arma, aliás, usada indiscriminadamente contra seus inimigos, um deles, o gigante Atlas. Do corte da cabeça de Medusa nascem Crisaor e Pégasus. Da patada de Pégasus no monte nascerá a fonte das Musas. Do crescente horror nascem as bases da Literatura Ocidental.
Outros pesquisadores também fazem alusão ao mito da Medusa. Iremos apresentá-los. Dois textos do filósofo italiano Giorgio Agamben retomam este mito. O primeiro texto, O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha, está relacionado ao testemunho dos judeus no campo de extermínio; e o segundo, intitulado Ninfas, associa-se à questão de capturar o movimento da dança (fantasmata).
No primeiro texto, está-se diante do testemunho daqueles que presenciaram o horror e, por isso, foram petrificados, emudeceram diante do que foi visto, porque quem se torna pedra diante do que se vê não fala sobre, dada a dificuldade de fazê-lo. Os judeus e mesmo outros grupos étnicos que foram enviados ao campo de extermínio vivenciaram esse processo de petrificação. E, para o filósofo, o mito da Medusa reflete esse horror, esse tornar-se pedra, paralisar-se diante do que não se tem palavras para falar, escrever. Fita-se a história, fita-se esse horror.
Agamben retorna ao termo prósopon, o que estava diante dos olhos, e ao termo gorgo, o anti rosto, mas que está sempre representado nos vasos/ cerâmicas gregas. Górgoneian consiste na impossibilidade da visão, é o que não se pode deixar de ver. Apóstrofe é algo que vem depois. Este pensador entende que a Górgona é uma ruptura da convenção, a górgona passa a ser vista como um chamado, como a apóstrofe, para que essa história seja vista, seja retomada, para que esse arquivo não se perca. O arquivo da história são essas memórias difíceis de serem acessadas porque refletem esse pavor. É uma visão negativa do mito. O olhar à Medusa é fixado nesse aspecto negativo.
Em relação ao segundo texto, citamos o autor:
"Digo a ti, que quer apreender o ofício, é necessário dançar por fantasmata, e nota que fantasmata é uma presteza corporal, que é movida com o entendimento da medida [...] parando de vez em quando como se tivesse visto a cabeça da medusa, como diz o poeta, isto é, uma vez feito o movimento, sê todo de pedra naquele instante, e no instante seguinte cria asas como o falcão que tenha sido movido pela fome, segundo a regra acima, isto é, agindo com medida, memória, maneira com medida de terreno e espaço" (AGAMBEN, 2012, p. 32).
Buscar compreender o movimento da dança não é uma tarefa simples, é complexo. A memória corporal faz parte desse percurso, e o dançarino executa esse mover-se e, em dado momento, há paradas pontuais e precisas. Mais uma vez, citaremos Agamben:
"A dança, portanto, é, para Domenichi, essencialmente uma operação conduzida sobre a memória, uma composição dos fantasmas [das imagens] em uma série temporalmente e espacialmente ordenada. O verdadeiro lugar do dançarino não está no corpo e em seu movimento, mas na imagem como "cabeça de medusa", como pausa não imóvel, mas carregada, ao mesmo tempo, de memória e de energia dinâmica. Porém isso significa que a essência da dança não é mais o movimento - é o tempo" (AGAMBEN, 2012, p. 27).
Nesse trecho, o autor é bastante conciso na relação entre o movimento corporal e a memória, o que nos chama atenção é o aspecto referente à questão da imagem como “cabeça de medusa”. O espectador, então, olha e busca registrar o movimento que escapa. O espectador deve criar a sua memória em relação ao movimento. Estamos diante mais uma vez da relação entre memória, petrificação/fixação de uma imagem e o mito de Medusa.
No primeiro texto, Agamben apresenta uma visão bastante negativa do mito de Medusa; no segundo, essa carga é dirimida, mas ainda assim não aparece como uma potência produtiva e criativa, pois o pterificar-se, paralisar-se continua sendo premente.
Outro estudioso do início do século XX que faz alusão ao mito da Medusa é Sigmund Freud, que, o conectou à ideia da castração em um artigo de 1922 intitulado A Cabeça de Medusa. Segundo o mito grego, Medusa era uma górgona com serpentes no lugar dos cabelos, e qualquer pessoa que olhasse diretamente para ela se transformava em pedra. Freud interpreta a cabeça de Medusa como um símbolo da angústia de castração.
Freud argumenta que, para o observador masculino, a visão da Medusa, especialmente suas serpentes, representa a metáfora da cabeça cortada que, em termos freudianos, simboliza a perda do pênis — o medo da castração. Para Freud, o horror da Medusa reflete o terror da castração e, ao mesmo tempo, atua como uma forma de defesa psíquica contra essa angústia. Essa análise insere a Medusa como uma figura ligada ao medo profundo do homem diante da perda do poder fálico, conectando o mito a um aspecto central da psicanálise freudiana: a dinâmica de desejo, medo e repressão.
O último autor que iremos apresentar é Walter Benjamin. Na obra intitulada Teses sobre o conceito de História, partindo da análise da obra Angelus Novus de Klee, Benjamin apresenta (na nona Tese) um anjo que olha o passado e vê as catástrofes, ruínas, mortos, cenas de guerra e cenas de horror. O passado se mostra terrível, o futuro, um possível sopro do paraíso. O filósofo retrata a conjuntura do início do século XX, marcado, sobretudo, pelas transformações de ordem socioeconômica, política, crise de 1929, I e II Guerras Mundiais. Deste modo, assim como Agamben, o olhar para o passado fita o horror. Mas o anjo não fica parado, ele é impelido por forças, que não o controlam, ao futuro. E, mais uma vez, estamos diante do olhar para a Medusa marcado pelo medo da morte, de virar pedra: é o horror que se vê em uma certeza inquebrantável a partir desse olhar. Mas será que não poderia ser quebrado?
Os homens apresentaram análises do mito da Medusa marcadas, sobretudo, pelo aspecto negativo do horror, da petrificação/paralisia. Calvino exalta as qualidades do herói Perseu, que matou o monstro e a usou como arma. Porém, existem outras leituras e interpretações desse mito. Vamos conhecê-las.
Mulheres e Medusa, ou Medusa e as mulheres
Hélène Cixous, na obra intitulada O Riso da Medusa, muda completamente os parâmetros. Medusa tem boca, voz e ri. Aquela que perdeu a boca porque foi estuprada começa a rir. O mito da Medusa é o mito fundador da literatura greco-romana. A autora afirma que houve uma má interpretação do mito, pois onde leram serpentes deveriam ter entendido línguas. “Bastava que Medusa mostrasse suas línguas para que os homens saíssem correndo” - afirma a autora (2022. p. 27). Essa boca é o testemunho, mas não do horror, como destacou, por exemplo, Agamben citado anteriormente. Cixous assinala que se cansou de uma literatura de decapitações, e um dos poderes da literatura é a reescrita da história. A literatura realiza a potência na escrita. Tornar esse impossível possível.
Para Cixous, quem fita a Medusa, a vê, ela é bela e ri. E devemos escutar esse chamado, esse riso. Rire, em francês, está dentro de écrire, e ainda há o crier em francês, gritar compondo a mesma palavra em francês. Ou seja, propõe uma glossolalia a partir desse mito que foi interpretado pelos homens sempre com horror, mas desconsiderando, sobretudo, que na história da Medusa, no mito, ela foi vítima de um estupro e passou a ser penalizada por esse fato. Essa glossolalia ocorrerá a partir da convocação de todas as mulheres que passem a escrever, que tenham fala e voz, que precisam expressar o seu lugar no mundo. Não podemos ficar restritas ao que dizem sobre nós. É mais do que direito de fala, é uma condição de existência.
Muitas mulheres estão se debruçando sobre essa tarefa. Algumas poetas brilhantes foram apresentadas em sala de aula, tratando especificamente de Medusa. Stephanie Borges, na parte IV do livro Talvez precisemos de um nome para isso, escreve um poema em que os cabelos de Medusa seriam crespos, e que esses cabelos crespos passam a surgir após anos de imperialismo do cabelo liso, fenótipo dos brancos, padrão de beleza. Um detalhe importante no poema refere-se ao espelho posto na nuca para olhar o corte, em paralelo ao olhar indireto para Medusa para não ser petrificado. Citamos um trecho do poema:
"um dos muitos segredos
são os espelhos
para que possa se ver bem
o instante do fim do corte quando
te colocam um menor por trás
para ver as costas a nuca as pontas
e de relance, é possível
se perceber replicável indefinidamente
ruim
rebelde
Uma metonímia?"
(BORGES, 2019)
E, ao olhar para esse espelho, enviesado como muitos olhavam para a Medusa, o que se percebe é o ato de replicar ao infinito. Ou seja, a concepção de temor é completamente alterada para uma ampliação da visão. O espelho nos permite ver além. Questiona, a concepção negativa do cabelo crespo. O cabelo é ruim, é rebelde? Ambos demonstram uma concepção negativa sobre esses cabelos, mas isso se trata de um olhar alheio sobre alguém. A autora faz alusão ao poeta Borges, que trata justamente dessa abominável replicação de seres humanos. Porém, não é uma concepção generalizada. E, os cabelos crespos são lindos.
Além disso, como colocou Hesíodo, a poeta enfatiza a origem de Medusa como sendo africana e a relaciona com os cabelos crespos, encaracolados.
"porque sempre lembramos dos
cabelos da Medusa
quando fatal é olhar
há quem diga que Medusa
a impetuosa
era uma sacerdotisa
transformada
há quem diga
não se pode olhar para ela
porque é impossível
contemplar a face da morte
há quem diga
ela era uma deusa muito velha
na Líbia [sim, na África]
e suas irmãs
Esteno e Euríale
são a que oprime
e a que corre o mundo
e as serpentes são o sinal da sabedoria (...)"
(BORGES, 2019)
Medusa, na concepção da poeta, era uma sacerdotiza, intermediaria a relação entre o mundo dos viventes e dos não viventes e o seu conhecimento não é ocidental, é africano. É interessante notar que a sabedoria está associada às serpentes e também à velhice. As serpentes, em várias mitologias, são associadas ao conhecimento**. Assim, a partir desse movimento, começam a nascer várias Medusas. Há cuidado, há orgulho, há criação de identidade, há beleza.
Histórias e memórias de um pertencimento constantemente apagado. É uma existência que somente quer existir. Não é uma redundância, os cabelos crespos e encaracolados somente querem existir e não precisam de controles para domar nenhum frizz, porque são o que são. E o corte de cabelo marca o começo de uma nova história, uma história com raízes ancestrais. É um poema lindíssimo, porque o corte na transição dos cabelos também é uma ruptura. Ruptura com o padrão de beleza de quem alisa os cabelos e, quando se faz o big chop, ruptura com uma tradição de que a beleza da mulher são os cabelos longos. Cabelos longos e lisos, mas que agora serão longos, trançados, encaracolados e crespos.
"Nasce daquele primeiro corte
a biografia do meu cabelo.
Como escrevê-la
sem uma futilidade intolerável?
Ninguém acusaria de ser fútil
a biografia de um braço
Deus, na sua bondade, permite
que assim seja
para que as mulheres passem a ter
medo de instigar os homens
exatamente pelo meio que
os demômios gostariam de ser instigados.
sério, não existe
nada melhor
para acabar com a
beleza exterior
de uma mulher
do que um corte de cabelo curto"
(BORGES, 2019)
Ainda relacionando essa ancestralidade ao mar e ao culto de Xangô, a poeta faz a associação com o animal marinho medusa, as águas vivas e os corais consagrados ao culto de Oiá, Iansã. Há uma interrelação entre o corpo da mulher e os animais marinhos, como as conchas nos ouvidos, os furos e buracos do corpo, onde se obtém o prazer da sexualidade, boca, vagina, ânus. Não menos importante é a língua, cuja liberdade da fala não pode ser dissociada do prazer da liberdade de ser o que se deseja ser, poeta, escritora, faladeira ou simplesmente uma amiga em uma conversa. Stephanie Borges dialoga no poema VIII com Carlos Drummond de Andrade. Ele, agora petrificado, tornado estátua na Praia de Copacabana, tem seus óculos roubados e não consegue enxergar os fatos, e talvez tenha falado de amor e de corpos femininos que desconheça. Ou seja, em uma imagem turva.
Tatiana Pequeno em medusa da silva traz um questionamento profundo sobre o que é história (o fato e o acontecimento) e o que é ficção (criação literária, uma lembrança?), o que é verdade e o que não é verdade.
"ora não há história na
poesia
existe apenas um
fio ar
rebenta
do como memória
um paradoxo entre
o que resta da devastação
e o acontecimento"
(PEQUENO, 2022, p. 38-39)
Há uma complexa discussão sobre o que é memória e o testemunho dos fatos, porque a testemunha pode narrar o que aconteceu, a vítima. E, como vimos, a vítima seria Medusa, e por que não é retratado dessa forma? E por que não considerar que existe história na poesia? Assim, o poema faz uma crítica ao texto bíblico, que é ficcional, historicamente datado e escrito por homens.
"o que há é história na poesia
a narração comprovada
de que não houve messias
apenas fatos marias
com corpos e mistérios
depois"
(PEQUENO, 2022, p. 38)
Além disso, nessa obra, existem vários relatos de violência física contra as mulheres. E esse texto é lido ignorando esses fatos, ou seja, há uma naturalização da violência contra a mulher, cujo discurso fundamenta o patriarcalismo ocidental. Esse poema revela uma verdade de que essa violência persiste até a atualidade. Há duas menções relevantes a serem destacadas, o canto das Musas, cuja origem remonta à Medusa e, indiretamente, à patada de Pégasus, e, por fim, o diálogo indireto com o texto de Cixous.
"sopra em mim teu canto
musa
teu riso não me assusta"
(PEQUENO, 2022, p. 39)
O último poema a ser comentado é o de Ana Martins Marques (2021), Um café com a Medusa. A partir desse momento, pode-se ter um diálogo próximo e direto com Medusa. Toma-se um café. O olhar não somente vê, mas toca, e esse tocar é a lembrança de que o destino de todos é o retorno ao pó. Assim, o futuro é, inevitavelmente, petrificante, independentemente dela. E, como dito, agora ela é mortal e não mais uma criatura mítica imortal e, como gente, também se destina ao pó. Castigada merecidamente, segundo Ovídio. Marques, ao contrário, reescreve a narrativa deste autor latino.
"Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito"
(MARQUES, 2021, p. 41-42)
Por Ana Martins Marques, uma mulher que tem os cabelos soltos e se relaciona com o mar. E no mar existem monstros? Talvez lá o tempo não seja linear e para falarmos do que desejamos, não existe um tempo preciso. A temporalidade inexiste para certas verdades. A verdade da violência contra as mulheres e, que o mar, por vezes, é um cemitério, de vida marinha e de vida humana.
"aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país de exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países,
mas extensões variáveis de terra"
(MARQUES, 2021, p. 43)
A poeta e Medusa, mais uma vez, riem e são desejosas, desejosas de sexo, de vida, de conversas, de línguas. Mas há uma violência que subjaz nos corpos dos que são expatriados de suas terras e morrem ao se aventurarem no mar. É importante lembrar que esse livro foi produzido no contexto da pandemia, em que existia o isolamento, assim como muitas mortes pela COVID-19 e também pelo processo de imigração ao redor do mundo, e isso se reflete no poema***. Há um diálogo com a Teogonia de Hesíodo, pois a Medusa é essa que também é uma estrangeira, como suas irmãs Esteno e Euríale, que habitavam os oceanos e a costa da África.
A análise da condição feminina é muito importante, pois associam-se as mulheres à “culpa pelo pecado original”, uma construção discursiva estatal e do patriarcado. Mas há uma ruptura, pois, as muitas serpentes são muitas línguas e muitas mulheres podem falar muitas línguas ao redor do mundo e muitas falam sobre sua condição, seus desejos e vontades. E nós podemos conversar com Medusa, olhando o porto, tocando a realidade que, muitas vezes, queremos ignorar, porém, nós, mulheres, não podemos fazer isso. Há uma cumplicidade que se expressa na narrativa. Medusa fala, a poeta fala, e, por vezes, a palavra é dirigida à leitora. Nesse poema, não há canto, mas sim a presença daqueles que jazem no mar, e a necessidade de que devemos falar.
Medusa e eu. Medusa e as muitas mulheres
Primeiramente, gostaria de agradecer por ter feito esse curso, e ter me estimulado a me aventurar numa escrita que nunca tinha ousado. Pensar a Literatura a partir de uma mudança discursiva em que se tem o olhar feminino como ponto de partida é mais do que revolucionário. É permitir uma cosmovisão em que tudo se altera e há espaço para o uso da linguagem em um outro nível. Há muito para ser feito, as sementes estão sendo plantadas, os ceifadores estão espalhados, mas a vontade da escritura permanece. O riso de Cixous não será esquecido, nem os enfrentamentos da poesia. Que fatos são esses, naturalizados, normalizados quanto à violência feminina, presentes em distintas literaturas que a poesia veio desnudar?
Na produção do meu texto, a leitura do poema de Stephanie Borges com os cabelos assume uma importância singular. É visual, é permanente, é presente, é atual, diz de quem nós somos, nossa origem. Minha Medusa encontra sua singularidade na África. Com o apoio feminino, não petrifica, não ignora, propõe muitas possibilidades. É uma verdadeira aventura, que eu agradeço por ter podido realizá-la.
* Essa parte é particularmente intrigante e gerou a carta de Athena no meu trabalho, pois há um discurso que alimenta essa inimizade entre as mulheres, haja vista o desenvolvimento do termo gossip na modernidade. Citamos Silvia Frederici, que analisou o tema em profundidade: “Também nesse caso, a caça às bruxas amplificou as tendências sociais de então. De fato, existe uma continuidade inconfundível entre as práticas que foram alvo da caça às bruxas e aquelas que estavam proibidas pela nova legislação introduzida na mesma época com a finalidade de regular a vida familiar e as relações de gênero e de propriedade. De um extremo ao outro da Europa Ocidental, à medida que a caça às bruxas avançava, aprovavam-se leis que castigavam as adúlteras com a morte (na Inglaterra e na Escócia, com a fogueira, como no caso de crime de lesa-majestade) e a prostituição era colocada na ilegalidade, assim como os nascimentos fora do casamento, ao passo que o infanticídio foi transformado em crime capital. Ao mesmo tempo, as amizades femininas tornaram-se objeto de suspeita, denunciadas no púlpito como uma subversão da aliança entre marido e mulher, da mesma maneira que as relações entre mulheres foram demonizadas pelos acusadores das bruxas, que as forçavam a delatar umas às outras como cúmplices do crime. Foi também neste período que, como vimos, a palavra gossip [fofoca], que na Idade Média significava “amiga”, mudou de significado, adquirindo uma conotação depreciativa: mais um sinal do grau a que foram solapados o poder das mulheres e os laços comunais” (FEDERICI, S. O calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2023).
** Um exemplo disto encontra-se na tradição oral entre os tukano na região nordeste da Amazônia, pois a anaconda teria criado o mundo. NAVARRO, A. G. Navegando pelo Turiaçu: a reprodução cosmológica do rio Amazonas e o mito da cobra-canoa e sua relação com as estearias do Maranhão. In História (São Paulo), v.40, e2021059, 2021. ISSN 1980-4369. https://doi.org/10.1590/1980-4369e2021059. Consultado em 27 de dezembro de 2024. Cf também KOPENAWA, D.; ALBERT, B. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Esta temática também aparece nesta obra.
*** “Pelo menos 63.285 pessoas morreram ou desapareceram em rotas de imigração em todo o mundo entre 2014 e 2023, com a maioria das mortes causadas por afogamento", informou a agência de imigração da Organização das Nações Unidas nesta terça-feira (26): https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-03/mais-de-63-mil-imigrantes-morreram-ou-desapareceram-na-ultima-decada#:~:text=Mais%20de%2063%20mil%20imigrantes%20morreram%20ou%20desapareceram%20na%20%C3%BAltima%20d%C3%A9cada,-Quase%2060%25%20das&text=Pelo%20menos%2063.285%20pessoas%20morreram,ter%C3%A7a%2Dfeira%20(26).
Bibliografia
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NAVARRO, A. G. Navegando pelo Turiaçu: a reprodução cosmológica do rio Amazonas e o mito da cobra-canoa e sua relação com as estearias do Maranhão. In História (São Paulo), v.40, e2021059, 2021. ISSN 1980-4369. https://doi.org/10.1590/1980-4369e2021059. Consultado em 27 de dezembro de 2024.
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