DÂNAE, A PROTAGONISTA - POR MARIANA MONTEIRO MENDES DO CARMO

DÂNAE, A PROTAGONISTA


A personagem que escolhi para reescrever e recontar sua história a partir de seu próprio ponto de vista é Dânae, mãe de Perseu e filha do Rei de Argos, e de Eurídice. Reescrevo sua versão da história, colocando-a como protagonista, não mais como coadjuvante. O motivo que me levou a escolher Dânae, princesa de Argos e mãe do herói Perseu, foi a oportunidade de dar poder a uma voz que revelaria os pensamentos e sentimentos de uma protagonista que havia sido silenciada e que, finalmente, seria ouvida. 


Das tantas personagens apresentadas, Dânae foi a que mais me cativou, não por sua história, mas sim pela falta dela. Criar uma narrativa sobre o ponto de vista de uma personagem sem voz despertou meu interesse. O objetivo da personagem era apenas lidar com o que lhe era ordenado e enfrentar as consequências do destino que lhe foi imposto: não falar, não questionar e apenas aceitar. Este era o destino da princesa de Argos. A personagem Dânae é um mistério, pois em nenhum lugar se registra o que ela pensava ou sentia enquanto homens e deuses, como Acrísio, Zeus e Perseu, controlavam sua história. 


Dânae era filha do rei Acrísio de Argos, que consultou um oráculo para saber se teria um filho. O oráculo respondeu que seu neto o mataria. Para evitar essa profecia, Acrísio aprisionou Dânae em uma torre de bronze. No entanto, Zeus, disfarçado de chuva de ouro, penetrou na torre e com isso forçou uma união com a Dânae, desse encontro nasceu Perseu. Quando Acrísio descobriu sobre o nascimento de Perseu, ele colocou Dânae e o bebê em um baú e os jogou ao mar. O baú foi encontrado por um pescador chamado Díctis, que levou Dânae e Perseu para a ilha de Sérifos. A narrativa original da tragédia de Dânae e Perseu ainda tem mais acontecimentos sobre o que aconteceu com os personagens após sua chegada na ilha, mas para a criação da minha narrativa esses acontecimentos são irrelevantes. 


Retratada como apenas um mero detalhe na lenda do herói Perseu e como uma peça na trajetória para a realização da profecia de seu pai, Rei Argos, a personagem Dânae tem seu protagonismo apagado de sua própria história. Quando citada, é apenas para preencher uma lacuna na história de outro personagem. Dânae é facilmente esquecida, embora seja uma das protagonistas que faz toda a trama acontecer, pois a trama gira em torno dela e do filho que ela viria a ter. 


Na minha versão, o que é Dânae e o que se passou com ela antes e depois de Perseu é o que quero recontar. Quero mudar o foco: não mais ela como um mero detalhe na narrativa de outros, mas sim os outros como detalhes na história que é dela. Não mais "antes e depois de Perseu" na vida dela, mas simplesmente a vida de Dânae. Para escrever a história de Dânae, busquei inspiração no filme O Código Da Vinci


Em O Código Da Vinci, utilizei o conceito do "cálice" para enriquecer a narrativa de Dânae, enquanto em Fúria de Titãs, a "morte de Dânae" foi reinterpretada para beneficiar sua história. O cálice é cercado por simbologias, principalmente a representação da união entre Maria Madalena e Jesus Cristo. No entanto, para a narrativa de Dânae, são elementos como a simbologia alquímica que ganham destaque. Nessa narrativa, utilizarei a simbologia alquímica, o "vaso receptivo", simbolizando o útero feminino e a capacidade de gerar vida. Além disso, o cálice também será representado como símbolo de libertação, destacando o poder feminino e colocando a mulher no centro da trama, conforme ocorre na história de Dânae, mesmo que na narrativa original seu protagonismo tenha sido apagado. 


A representação da liberdade de Dânae é ilustrada por sua risada, um elemento que simboliza ação e sentimento de libertação. Essa escolha é particularmente significativa, considerando que Dânae é uma personagem que nem sequer tem pensamento. Nesse contexto, a risada se torna um ato de resistência e autonomia, refletindo o conceito de 'riso feminino' de Hélène Cixous em O Riso da Medusa, como símbolo de libertação.  


Na minha narrativa gostaria de acrescentar a “morte de Dânae” e resolvi dar um novo significado para a morte. Redefini esse elemento para que seja uma chave de libertação, onde a morte, ou quase morte, torne-se um caminho para a liberdade. Não pretendo fazer a “morte de Dânae” girar em torno de seu filho, ou de um objetivo para ele seguir. A morte da personagem deve ser um ponto sobre a nova liberdade que ela virá a encontrar. Também não pretendo dar a morte de Dânae para outro personagem, a morte dela será a sua chave de libertação. Diferente das outras versões da história de Dânae, esta narrativa tem objetivo de apresentar a personagem como um ser livre, que mesmo aprisionada em uma torre e tendo seu corpo violado por um deus, Zeus, ainda encontra o caminho para a sua própria liberdade, mesmo que fuja do tradicional conceito de liberdade. Dânae é dona e criadora da sua própria liberdade. 


Não mais um objeto para moldar a trajetória de um herói, mas um ser livre para visualizar e criar sua própria liberdade.



LEVEM MEU RISO

 

Eu estava no jardim, olhando para o céu. Havia nuvens escondendo o sol, o que me trazia tristeza, por não poder me despedir do calor que emana daquela grande bola de fogo. Agora, penso que, mesmo que o céu estivesse completamente exposto, não conseguiria dizer adeus ao sol. Nem sei dizer adeus, nem sei como soa a minha voz.

 

Coloquem-na na torre, não a deixem ver qualquer homem. Ela está banida do reino de Argos e da liberdade que eu, Rei de Argos e teu pai, lhe dei um dia. Como podes ser tu a criatura que colocará no mundo aquele que irá me matar? 


Meu pai, se você soubesse o quanto eu rio por baixo da máscara de tristeza e obediência, você é mais engraçado do que qualquer palhaço poderia ser. Você vem aqui dizendo que a liberdade é o que está me tirando, mas explique-me, antes de fechar a porta na cara de sua filha, que só lhe tem dado a mais humildade obediência, enquanto busca pelo reconhecimento de sua existência. Explique-me, qual é essa liberdade que você me tira? 


Estou presa em uma torre sem janelas, sem frestas do sol, estou presa em uma torre em que nenhum homem consegue me tocar ou sequer me olhar, estou livre. Não uso panos para me cobrir em minha torre, não prendo os fios que ficam no topo de mim, não permito que qualquer parte de minha fique presa. As paredes são testemunhas de quão livre eu sou. Dentro dessa torre tirei a máscara que abafava a gargalhada que por muito tempo estava presa em minha garganta. Eu ri. 


Ri tanto que meu rosto ficou a doer. Meu pai, você foi o maior motivo de minha gargalhada. O Rei de Argos, o homem incapaz de ter um filho, o Rei de Argos, que só tem uma filha, e esta lhe trará a morte certa, pois foi assim que as Moiras teceram o seu destino. Tranque-me em torres, mate a liberdade que é apenas uma fantasia de criança, atribua a mim a culpa de alguém que nem respira ainda. Descarregue seus ombros e coloque o peso no meu cálice, que ainda está vazio, ó pai. Culpe-me por tua morte que ainda não chegou; culpe tua filha pelo lamento que tuas mulheres farão quando tua morte chegar. Teu medo me jogou em uma torre para tirar a liberdade que você pensou que tinha para tirar. Acho graça desse teu delírio, mas não se preocupe, Rei de Argos: não passarei meus dias pensando em você, nem rindo de você. Tenho certeza de que em breve nem lembrarei mais como você é. 


Dentro desta torre, que nomearam de minha prisão, sinto a liberdade todas as vezes que respiro. No começo, senti-me quase perdendo-me dentro desta liberdade, mas então percebi que não era a liberdade que me sufocava, mas as amarras que me prendiam antes. Fechei meus olhos e as deixei cair; estava livre, livre das amarras que os homens criaram para prender seres como eu. Agora estou livre. Dentro desta minha torre, sinto-me tão livre. As paredes, tão gigantes, me envolvem e protegem dos ventos do norte. Não conheço mais as dores de ser eu. Nada me cobre, nada segura os fios que estão presos no topo de mim. Nada me corta, nada me tira o ar, nem os trovões podem me tocar. 


Dentro desta torre sou livre. 


Não sei se foi em uma noite, uma manhã ou uma tarde; apenas sei que estava chovendo. Zeus, o Deus dos deuses, estava por perto. Como sei? Os trovões ecoavam dentro de minha torre. Não há frestas para o sol entrar; as paredes impedem a chuva e o vento de me tocar, mas, mesmo assim, sinto meus pés molhados. Devo ter chamado a atenção do senhor ou lhe ofendido de alguma maneira. Não importa, toda dama conhece a fama do deus dos deuses. 


A chuva entrou por algum lugar, a chuva sobe pelas minhas pernas, eu sinto a chuva em mim. 


Tão previsível é o deus dos deuses. Zeus, visto minha máscara para ti, me afogo em desespero por não saber de onde vem esta chuva dourada que me cerca. Chuva invertida, não vem dos céus, mas do chão. Não desce por minha cabeça, ela sobe por minhas pernas. Sinto a chuva me molhar, me sujar de dourado, visto minha máscara e fico em silêncio. 


Não consigo permanecer em pé, deixo meu corpo cair em uma parede para me segurar, como braços que impedem um herói de cair no meio de uma batalha. A torre me envolveu como uma mãe que protege seu filho, eu estava me afogando naquela repugnante chuva dourada, mas ainda estava de pé. 


Dias passaram e minha torre ainda estava úmida, meu cálice que antes estava vazio agora está cheio da chuva dourada que me afogou a dias atrás, não sei o porquê do deus dos deuses ter resolvido me tornar fonte de sua atenção, mas sei que não abalou minha liberdade, diferentemente do que até eu mesma esperava. A liberdade que estava crescendo dentro de mim, antes da visita indesejada do deus, se expandiu. Finalmente, seria livre do destino de outro alguém. Espero que meu cálice transborde logo e eu esteja totalmente livre dos rastros do destino do Rei de Argos e da chuva dourada.  Novamente, não sei se é manhã, noite ou tarde, mas sei que finalmente minha espera acabou. Meu cálice está transbordando; ele está expulsando o assassino do Rei de Argos que há dentro de mim. Que saia, mesmo que seja necessário dor para que eu obtenha a maior das liberdades! Sofrerei mais que aqueles condenados ao Tártaro, pois esse sofrimento trará os Campos Elíseos até mim. Ajudo meu corpo a expulsar o invasor que habita dentro dele. Minhas forças esgotadas, minhas pernas completamente molhadas por meu sangue, mas prefiro ver meu sangue a qualquer gota dourada. O sol entrou na torre, uma porta se abriu, um choro começou, e um alívio tomou meu peito, meu cálice estava vazio. Não consegui me conter, comecei a rir, estava totalmente livre e o corpo que sempre fora apenas meu, voltava a ser apenas meu outra vez. 


Naquele momento eu estava a rir de como Zeus havia tentado me afogar, de como meu pai tentou me esconder do sol, mas aqui estava eu, sendo cegada pela claridade que só o sol obtinha e de como meu sangue havia me salvado de morrer afogada em uma chuva dourada


Meu próprio sangue foi a água que limpou a mim daquela chuva dourada. Um baú. De princesa de Argos, a uma mulher livre dentro de uma torre sem amarras, depois a uma sobrevivente de uma chuva dourada, agora sou uma mulher dentro de um baú jogado no mar e com um acompanhante de viagem que não deve ter nem o tamanho de meu braço. Estou eu e o futuro assassino de meu pai jogados à sorte no reino do deus do mar, Poseidon. Me sinto cansada, todas as minhas forças se foram enquanto ajudava meu cálice a expulsar o intruso que estava nele, agora só me restava ficar de olhos fechados sentindo as ondas baterem no baú. 


Oh baú, lhe peço que me jogue nas profundezas desta terra, que você me leve a um caminho que nem os deuses conhecem. Que esse ser do meu lado se perca e nunca ache o caminho até mim, siga teu destino e não o entrelace ao meu. 


Ainda estava de olhos fechados quando o baú chegou ao destino que as ondas fizeram para ele, e assim continuei por muito tempo, ainda sem força, mas feliz por saber o motivo de estar sem forças sequer para abrir meus olhos. O ser que estava do meu lado começou a chorar. Que saudade da minha torre e do silêncio que se tinha nela, e que não tenho dentro deste baú apertado. Ele chora, chora e chora mil vezes mais. Tudo que faço é ficar parada esperando esse ser entender que não importa o que ele faça, não há nada a fazer. Sigo parada escutando o som da tortura que o choro alto e estridente que esse pequeno ser faz, mas não para até darem a atenção que um ser como ele gosta de ter, não importa se é deus ou homem, sempre vai querer ser o centro das atenções. 


Ele chorou tanto que atraiu a atenção de algo em volta. Se eram inimigos ou algum animal com fome, pronto para nos fazer de refeição? Não importava, agora apenas restava esperar para viver o destino que as moiras teceram. Homens, escuto vozes de homens se aproximando cada vez mais do baú, o ser parou de chorar, inacreditável. Quando consegue o que tanto queria, despreza. Seres estranhos esses. 


Um baú, era um bebê! 

Tenho certeza, vamos, ajude-me! 


Salvem esse ser, selem o destino de uma vez por todas. 


O sol entrou no baú, mais uma vez a luz entrando e iluminado tudo, mas dessa vez não pude aproveitar o céu, foi tudo tão rápido, em segundos estava sozinha no baú. Os homens me deram como morta, Dânae, filha do Rei de Argos, a que traria a morte de seu pai em seu cálice, estava morta. 


As moiras cortaram o fio da vida da princesa de Argos, a criadora de mais uma lenda ou qualquer barbaridade que o ser virasse a se tornar, estava morta. Se tivesse forças em meu corpo juro que teria soltado uma gargalhada no momento que o destino  me presenteou com algo melhor que os Campos Elíseos, o destino presenteou-me com a escolha. Mexa-se e demonstre que está viva ou fique parada igual a uma estátua e morra. Escolho a morte. Como se estivesse apenas esperando a decisão ser tomada, o baú tremeu e se deixou levar por uma onda. Alguns homens gritavam que tinham que alcançar a mim, dar-me uma despedida digna. Coitados, mal sabem que a coisa mais digna que podem fazer por mim é esquecerem de minha existência. 


Um choro, ouvi um choro distante, o que é ótimo, quanto mais distante do som, mais distante do dono dele vou estar. Enquanto me distanciava do choro, entendia que aquele ser era apenas um nó em meu destino. E eu, por minha vez, não seria mais do que uma nota breve na sua vida. 


Aqui, neste lugar, desconhecido e distante da torre, coloco fim ao destino de Dânae. Dânae, a mulher que encontrou a liberdade na escuridão de uma torre, que pôs fim ao destino que estava vinculado a ela, a mulher que morreu com uma gargalhada presa na garganta. Eu solto uma risada, dentro de meu baú, em nome dessa mulher livre. Eu, que vou ser livre dentro da luz do sol, peço que o vento leve minha risada até a torre de Dânae, pois assim ela saberá que o fim chegou, mas que felizmente havia sol para iluminar o novo começo.


Eu e Dânae somos tão diferentes, mas ambas somos livres. 

Uma risada para nós, mulheres livres. 




REFERÊNCIAS

ÓVIDIO. Metamorfoses. Tradução de Paulo Farmhouse Albuquerque. São Paulo: Editora Concreta, 2016. 

O Código Da Vinci. Direção de Ron Howard. Produção de Brian Grazer e John Calley. EUA: Columbia Pictures, 2006. DVD. 

GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos. Tradução de José Geraldo Barreto Domingues. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2001. Capítulo 73: "Perseu" (p. 321) 

BROWN, Dan. O Código Da Vinci. Tradução de Carlos Márcio Chan. Rio de Janeiro: Objectiva, 2004. 

CIXOUS, Hélène. O Riso da Medusa. Tradução de Maria Helena Souza Castro. São Paulo: Bazar do Tempo, 2010. Reimpressão: 2022.

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