Sibyl Vane: uma linha de expressão de Dorian Gray - por Maria Eduarda de Araújo Gonzalez Cavadas
Sibyl Vane: uma linha de expressão de Dorian Gray
Desde os primórdios da literatura, a figura feminina foi relegada a segundo plano. Uma das histórias mais famosas e antigas conhecidas inaugura o fenômeno de protagonização (sempre admirável e heroico, claro) do homem e menosprezo (ora descartabilidade, ora vilanização) da mulher: a história de Adão e Eva. Tendo em vista que uma das primeiras histórias do Ocidente sobre os primeiros seres humanos exalta o homem e difama a mulher (se não inteiramente, ao longo de sua maior parte), não é uma surpresa que o viés machista seguiu dominando a literatura, silenciando vozes femininas e abominando a mera existência de mulheres, se não como antagonista de um homem. Entendendo essa performance do machismo e sua predominância na arte literária, é possível observá-la em inúmeras obras, até mesmo contemporâneas. Nesse ensaio, identificarei a opressão e desprezo sofrido por Sibyl Vane, personagem secundária com breve presença em O Retrato de Dorian Gray.
O sufocamento de Sibyl Vane é pluridimensional: sendo a única provedora da família, composta por si, sua mãe e irmão, a menina de apenas dezessete anos sofre uma escravização no teatro, no qual atua para pagar as dívidas que a família tem com o dono dele. Sua própria mãe, solteira de dois filhos cujo pai era casado com outra mulher, vê a menina como objeto abastecedor - Sibyl é posta como utilidade, não humanidade: “― Só estou feliz, Sibyl, quando te vejo representar. Não deves pensar em mais nada senão na tua arte de representar. Mr. Isaacs tem sido muito bom para nós e nós devemos-lhe dinheiro.” (WILDE, 2000, p. 43). Na mesma conversa do trecho citado, a mãe reprime Sibyl quando esta conta sobre o relacionamento com Dorian Gray, desmerecendo a paixão da filha. Sibyl não pode ter sentimentos, não pode querer nada. Para a mãe, mostrá-los significa não ter consideração pela família, já que, ao se casar, passaria a morar com ele e portanto não sustentaria mais a família. Assim, Sra Vane não permite que sua filha seja nada além do que ela precisa de Sibyl: seu salário. Ela evidencia a importância singular do dinheiro mais uma vez quando, depois de detrair o amor que a filha manifestou, se mostra favorável ao casamento no caso de ele ser rico, ou seja, o matrimônio traria riqueza, ao invés de retirá-la: “― Minha filha, és muito nova ainda para pensar em te apaixonares. Além disso, que sabes tu deste rapaz? Nem sequer sabes o seu nome. Tudo isto é muito inoportuno, e, realmente, agora que o James vai para a Austrália, e eu tenho tanto em que pensar, devo dizer-te que devias mostrar mais consideração. No entanto, como eu dizia há pouco, se ele for rico…”(WILDE, 2000, p. 44). Nesta conversa, Sibyl se sentia aprisionada e silenciada, tendo seu sonho enfraquecido pela mãe: “A voz tinha a alegria de um pássaro engaiolado. Os olhos captavam a melodia e irradiavam-na como um eco, depois fechavam-se por um momento, como que a esconder o seu segredo. Quando se abriram tinha passado por eles a névoa de um sonho. ”(WILDE, 2000, p. 44).
Ainda entre seus familiares, outro personagem que ressalta a pequenez de Sibyl na narrativa é seu irmão um ano mais novo, James Vane. Em um passeio ao parque com a irmã, que falava alegre e esperançosa sobre o futuro do irmão, James pensava incessantemente em Dorian, revelando um ciúme obsessivo pela irmã. Ao finalmente responder a irmã, que falava sozinha, não demora até ele trazer o pretendente dela à tona: “― Pelo que ouvi, tens um novo amigo. Quem é? Por que não me falaste dele? Ele não tem boas intenções a teu respeito.”(WILDE, 2000, p. 47) e, mais a frente na conversa, segue reprimindo Sibyl pela paixão: “― Ele pretende dominar-te. [...] ― Quero que tenhas cautela. [...] ― Sibyl, tu estás louca por ele.”(WILDE, 2000, p. 48). Com a repulsa do irmão, Sibyl foi obrigada a guardar seu amor para si, aflita por ter seus sentimentos silenciados mais uma vez: “Sibyl sentia-se oprimida. Não conseguia comunicar a sua alegria. Só encontrava eco no breve sorriso que fazia levantar os cantos daquela boca tristonha.”(WILDE, 2000, p. 48). Na despedida de James, naquele mesmo dia, ele se encontra de novo em obsessão pelo homem que sua irmã amava: “O rapaz tinha o coração carregado de ciúme, e ainda de um ódio feroz e homicida pelo desconhecido que lhe parecia haver-se intrometido entre ele e a irmã.”(WILDE, 2000, p. 48). James, mesmo tendo um olhar mais humanizado para com Sibyl do que a mãe, ainda se acha intitulado dela, de modo que ele abomina um relacionamento amoroso da irmã sem nenhum fundamento, inicialmente. Ele enxerga o casamento como um “roubo” de sua irmã, sendo o pretendente o ladrão. Dessa forma, Sibyl é vista como um objeto também pelo seu irmão, algo que ele possui e que, com o casamento, o marido passaria a ter.
O terceiro agente de opressão de Sibyl é o protagonista narcisista Dorian Gray. A paixão de Dorian e Sibyl começa com as idas dele ao teatro, onde ele a vê atuando uma noite e se encanta pela sua beleza e interpretação. Entretanto, é fácil perceber que Dorian não se apaixonou por Sibyl Vane, mas sim pelas personagens que ela interpretava. Amar e ser amado por ela significaria amar e ser amado por todas as mulheres das peças shakespearianas que ela representava - mulheres “perfeitas”, irreais e apenas tão profundas quanto as palavras podem escrevê-las. Naturalmente, Dorian Gray deseja a personificação desses símbolos do romance, que no caso era Sibyl Vane. Além disso, ser o amante de Sibyl significava ser amante de todas as personagens mais cobiçadas da literatura, ou seja, “superar” todos os personagens masculinos heroicos, românticos e apaixonantes de cada uma: “― Quero que Romeu tenha ciúmes de mim. Quero que todos os amantes mortos do mundo ouçam o nosso riso e fiquem tristes.”(WILDE, 2000, p. 39). Para o egocentrismo de Dorian Gray, essa era uma das maiores conquistas que poderia ter. Ao contar dela para os amigos, fala mais dela atuando como outras do que Sibyl Vane propriamente dita. Um comentário que ele faz sobre ela mostra muito o desprezo e desinteresse nela como pessoa, apenas como ideia - novamente, Sibyl Vane é um objeto: “― Ela não sabe nada da vida. Vive com a mãe, uma mulher cansada e débil, que, na primeira noite, fez de Lady Capuleto, vestindo um roupão escarlate, e que tem o ar de ter tido uma vida mais próspera. [...] ― O judeu quis contar-me a história da vida dela, mas eu disse-lhe que não estava interessado.”(WILDE, 2000, p. 39). Ademais, na mesma conversa, ocorre o diálogo: “― Esta noite ela faz de Imogénia - respondeu ele, abanando a cabeça -, e amanhã à noite vai representar Julieta. ― E quando é que ela é Sibyl Vane? ― Nunca.”(WILDE, 2000, p. 39).
Tendo reduzido Sybil Vane a uma ideia de próprio interesse, o mesmo a humilhou e descartou quando essa ideia foi quebrada pela atriz em uma tentativa de provar a devoção dela pelo amado. Sibyl, apaixonada, chegou à conclusão de que não poderia interpretar a paixão tão verdadeiramente no palco, pois sua paixão era somente para Dorian. Além disso, antes de Dorian Gray sua vida era totalmente focada no teatro. O único lugar em sua própria vida em que tinha destaque era o palco e, mesmo assim, era na forma das personagens que interpretava, não dela mesma. Portanto, quando conheceu ele, surgiu um novo ambiente em sua vida, uma nova “missão”, o relacionamento entre os dois. Sibyl antes tinha apenas o teatro para viver, mas quando se apaixona por Dorian Gray, esse amor tira ela do destino miserável tanto do fingimento da atuação quanto da sua escravização no teatro. Ao experienciar finalmente a paixão que tantas vezes fingiu sentir no palco, não conseguia mais fingir e decidiu que o único digno de ver seu amor ardente era seu causador: Dorian Gray: “― Ah, Dorian, Dorian, compreende agora o significado de tudo isto? Ainda que o pudesse fazer, seria para mim uma profanação representar o papel de apaixonada. Foi o Dorian que me fez ver isso.”(WILDE, 2000, p. 60). Entretanto, ao ouvir a explicação de Sibyl, Dorian a crucifica, dizendo que Sibyl matou o seu amor. Ele grita do desprezo e vergonha que sente dela, revelando que realmente não era a atriz quem ele amava: “― É fútil e estúpida. [...] A Sibyl já nada representa para mim. Não voltarei a vê-la jamais... Jamais pensarei em si. Jamais pronunciarei o seu nome. [...] Quem me dera que nunca a tivesse visto. Destruiu o sonho de amor de toda a minha vida. [...] Sem a sua arte, a Sibyl não vale nada. Eu podia torná-la célebre, esplêndida, magnífica. O mundo tê-la-ia idolatrado, e eu ter-lhe-ia dado o meu nome. O que é a Sibyl agora? Uma actriz de terceira categoria com uma cara bonita.”(WILDE, 2000, p. 60). Nessa fala, também vê-se que Dorian se acha muito superior a ela, afirmando que poderia melhorá-la, como se fosse a pessoa a dar sentido à vida dela. A partir do choque com a reação do homem que dizia amá-la, Sibyl abdica da autorreflexão que a tinha orgulhado tanto e promete que não repetiria o erro, reforçando que foi pelo amor imenso que sentia por ele e implorando para que ele não a deixasse, repetidamente: “― Mas, Dorian, não poderá perdoar-me por esta noite? Hei-de trabalhar aplicadamente e tentar aperfeiçoar-me. Não seja cruel comigo porque o amo mais que tudo neste mundo. Além disso, foi só desta vez que não lhe agradei. Mas tem razão, Dorian. Eu deveria ter mostrado mais a artista que há em mim. Foi uma loucura o que fiz, mas foi mais forte do que eu. Oh! Não me abandone, não me abandone.”(WILDE, 2000, p. 61), mas para Dorian já era tarde demais. Descartou a menina do seu coração tão rapidamente que seu choro implorando para ele não ir embora não provocava nada em si além de repulsa: “A seu ver, Sibyl Vane era ridiculamente melodramática: As suas lágrimas e os soluços irritavam-no.”(WILDE, 2000, p. 61). O homem foi embora, dizendo apenas que não poderia mais vê-la porque o desiludiu, deixando Sibyl Vane chorando em silêncio, sozinha e, tendo perdido tudo que tinha - porque tinha somente a Dorian -, a atriz comete suicídio na mesma noite.
Após seu suicídio, o nome de Sibyl Vane foi citado no máximo 15 vezes na narrativa. Essas breves menções consistem em Dorian ora menosprezando Sibyl, ora lamentando sua morte, ora os dois ao mesmo tempo: “― Então fui eu quem matou Sibyl Vane - disse Dorian Gray, como que falando consigo mesmo -, e foi tão verdade como se lhe tivesse golpeado com uma faca a delicada garganta. No entanto, as rosas não deixam de ser menos belas por causa disso. As aves continuam a cantar alegremente no meu jardim.”(WILDE, 2000, p. 67).
Todas as menções, entretanto, continuam a traduzir o narcisismo do protagonista, e nunca eram realmente sobre Sibyl Vane. A personagem resumida a objetos por todos que amava, silenciada e menosprezada no enredo, tem a mesma pequenez de espaço na história. Sua existência é fundamentada na caracterização de Dorian Gray, o personagem principal. Sibyl é apenas um degrau na construção do protagonista e seu sofrimento serve para marcar a crueldade dele de tal modo que, após abandoná-la no teatro, Dorian percebe em seu retrato um “laivo de crueldade” novo na boca - retrato esse com o qual o homem havia feito um desejo de que a pintura carregasse todos os traços de idade e perversidade dele.
Em conclusão, em todos os contextos, Sibyl Vane é vista como uma ferramenta: pela sua mãe, como fonte de renda; pelo seu irmão, como posse; por Dorian, como símbolo. Sibyl não tem sua humanidade reconhecida e não pode se expressar, a forçando numa posição submissa e silenciada. Dorian se apaixona pela ideia do amor de Sibyl, que seria para ele a prova de sua dignidade maior, por conseguir o amor das personagens que todos os homens sonham em amar. Ainda assim, há os momentos em que ele a trata com desprezo com os amigos. Assim que Sibyl abandona a atuação em nome do amor, concluindo que a sua paixão era apenas para ser sentida por Dorian, o protagonista a descarta friamente, mostrando que nunca amou a mulher, apenas a atriz. Sua morte é rapidamente esquecida por Dorian, que nunca realmente reconhece o sofrimento que causou. Sibyl não é permitida de ter uma identidade, uma voz ou emoção, porque todos esses se atribuem a humanos e, para todos, ela é um objeto, uma utilidade. Sua história, ao meu ver, é mal explorada e resolvida. Como a atriz apaixonada que era antes de conhecer Dorian Gray, a menina dava seu sangue no palco. Imagino um novo desenrolar da história, onde a raiva por Dorian, sua ingratidão e abandono depois de tudo que ela já havia aberto mão por ele, a possua e ela use a persona dele para escrever um roteiro em crítica ao narcisismo do homem e propor ao Sr. Isaacs, dono do teatro. Ela mesma interpretaria o Homem Narcisista na peça, dando um ar cômico e entregando, enfim, mais um tipo de interpretação de excelência. Assim, ganharia cada vez mais fama, chegando num ponto onde daria um dinheiro para a mãe e viajasse com o teatro, se tornando uma atriz revolucionária e bem-sucedida.
*Letra de música: “Colors”, de Halsey
“Você era vermelho e gostava de mim porque eu era azul
(You were red and you liked me 'cause I was blue)
Mas você me tocou e de repente eu era um céu lilás
(But you touched me and suddenly I was a lilac sky)
E você decidiu que roxo não era para você
(And you decided purple just wasn't for you)”
*Curiosidade: Ebook “The Picture of Sibyl Vane”, de Tax Fries
“Peça curta baseada em "O Retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde. O ano é 1939. A bem-sucedida atriz do West End, Sibyl Vane, visita o estúdio de sua amiga artista, Basilia, para ter seu retrato pintado e discutir o relacionamento triangular com Dorian Gray.”
REFERÊNCIAS
WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. São Paulo: Abril/ControlJornal, 2000.
TORRES, Leandro R. A OPRESSÃO SOFRIDA PELA PERSONAGEM SIBYL VANE NA OBRA O RETRATO DE DORIAN GRAY. 2016. 9 f. Trabalho (Mestrado em Letras) - Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, Rio Grande do Norte, 2016.
