Corpo e identidade da mulher negra em O Cortiço - por Eliete Cabral Cândido da Silva

Corpo e identidade da mulher negra em O Cortiço

Este trabalho propõe trabalhar e analisar o livro O Cortiço, escrito por Aluísio Azevedo em 1890. O romance, ambientado no Rio de Janeiro pós-abolicionismo, apresenta a sociedade carioca de forma crua e objetiva, sendo caracterizado como um exemplo clássico do naturalismo, sob a perspectiva do determinismo.

Bertoleza e Rita Baiana representam uma parcela significativa das mulheres negras e pobres na sociedade escravocrata brasileira, uma realidade que persiste de maneira alarmante até os dias de hoje. Elas expressam a dualidade de suas vidas e a forma como são exploradas pelos homens, sobretudo os portugueses. Essas mulheres são submetidas ao trabalho braçal domesticado e à objetificação de seus corpos, considerados apenas fontes de prazer sexual. Isso é evidenciado pela célebre frase de Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala: "As mulheres brancas são destinadas a se casar, as mulatas a se fornicarem, e as negras, a trabalhar". Esta frase ilustra um imaginário que delimita e limita a identidade das mulheres negras na sociedade.


Na contemporaneidade, a percepção do corpo e da identidade das mulheres negras ainda é amplamente exposta em eventos como o Carnaval. Desde 1920, figuras como Tia Cássia e Dona Ivone Lara, as primeiras mulheres a integrar a ala de uma escola de samba, desempenharam papeis importantes nesse contexto. No entanto, a presença dessas mulheres nas escolas de samba ainda perpetua a prática da hipersexualização do corpo negro. Um exemplo mais recente dessa exposição é a "Globeleza", exibida pela Rede Globo: mulheres negras nuas, pintadas artisticamente diante das câmeras. Enquanto alguns veem essa figura como representação de liberdade artística, outros a consideram uma reafirmação de estereótipos estéticos e sociais sobre as mulheres negras. Desde 2017, a emissora mudou sua abordagem, promovendo maior diversidade e respeito na representação dessas mulheres.



Bertoleza


Bertoleza, personagem de O Cortiço, é a personificação da mulher negra marginalizada, refletindo as marcas profundas da escravidão. Sua existência é constantemente ligada à utilidade braçal ou à exploração sexual. João Romão, aproveitando-se de seu analfabetismo e vulnerabilidade, manipula-a para seus próprios interesses. A objetificação que ela sofre ainda ecoa na contemporaneidade, manifestada nas desigualdades sociais que persistem em afetar as mulheres negras no Brasil. Como destaca a escritora e ativista negra bell hooks: "A objetificação do corpo negro feminino o coloca como território a ser colonizado, domado e sempre pronto a servir, seja no trabalho ou sexualmente" (2020).


Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; às quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os fregueses e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na taverna (p. 15).


A forma racista como Bertoleza é descrita revela não apenas o preconceito de João Romão, mas de toda a sociedade do século XIX. Este viés ideológico, que desumaniza e marginaliza, é reiterado por personagens como Miranda e Botelho, que utilizam termos discriminatórios ao se referir a Bertoleza, perpetuando estereótipos e preconceitos nas relações sociais.


“Miranda, quando,entre outros assuntos palpitantes, vinha à discussão o movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco. Então o Botelho ficava possesso e vomitava frases terríveis, para a direita e para a esquerda,como quem dispara tiros sem fazer alvo, e vociferava imprecações, aproveitando aquela válvula para desafogar o velho ódio acumulado dentro dele”. (p. 25)


Além disso, em um trecho da obra, João Romão deixa evidente que, ao suspeitar que Bertoleza estivesse grávida, forçou-a a abortar duas vezes, sem seu conhecimento. Essa atitude reforça a completa falta de autonomia de Bertoleza sobre seu próprio corpo e sua vida, controlada brutalmente por outro. “Esse controle sobre a capacidade reprodutiva de mulheres negras pode ser interpretado como uma metáfora para o desejo de regular suas vidas e seus corpos.” A apropriação do corpo da mulher negra por uma sociedade machista e patriarcal é um tema atemporal. Não só Bertoleza, mas muitas outras mulheres da obra enfrentam essa ausência de autonomia. Exemplos são Rita Baiana e Piedade, cujas vidas são diretamente moldadas pelos homens ao seu redor. Rita, amante de Jerônimo, exemplifica como o desejo masculino dita o destino das mulheres. Já Piedade, ao ver seu casamento com Jerônimo desmoronar, sucumbe à ruína emocional.


A ascensão de João Romão retrata a mobilidade social masculina, especialmente entre imigrantes europeus, que encontram na sociedade brasileira da época como meio de inserção e crescimento vendido à coroa portuguesa. Ao almejar o casamento com a filha de Miranda aristocrata, ele busca concretizar seu desejo de ascender socialmente, Enquanto as mulheres, que são vistas com propriedade de seus marido, João Romão representa o cujo homem português branco que assim como os colonizadores em 1500 obtém suas conquista em cima da dor dos outros.



Rita Baiana


Em contrapartida, Rita Baiana é descrita como uma mulher negra sedutora e destrutiva, simbolizando a "cor do pecado". Esse estereótipo, presente desde o século XIX, reflete a visão historicamente construída sobre as mulheres negras. Rita vive um relacionamento tumultuado com Firmo, um homem violento que representa a paixão intensa e perigosa. O contraste entre esse amor violento e a paixão de Jerônimo por Rita revela como as relações humanas na obra são marcadas pela tensão entre desejo e destruição.


“A cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher”. (p. 77)


A trajetória de Piedade, que sucumbe ao alcoolismo após a traição de Jerônimo, reflete a falta de controle que muitas mulheres têm sobre suas próprias vidas. Enquanto Jerônimo escapa de julgamentos sociais e é livre para seguir seus desejos, Piedade sofre as consequências de sua ruína emocional. Isso revela a diferença de tratamento entre homens e mulheres, uma constante na sociedade descrita por Azevedo.


Por fim, a obra evidencia como a sociedade é moldada para atender aos desejos dos homens, frequentemente às custas das mulheres. Personagens como Bertoleza, Rita e Piedade sofrem os impactos das decisões masculinas, seja física, emocional ou socialmente. Azevedo expõe, assim, uma crítica contundente à sociedade patriarcal e às desigualdades de gênero e raça que continuam a ressoar na modernidade.



Releitura do fim trágico de Bertoleza que foi ressignificado


Bertoleza, exausta e marcada pela vida de escravidão, encontrou esperança no momento mais sombrio de sua existência. No instante em que pensou que tudo estava perdido, os orixás Iansã, Omolu e Nanã se manifestaram. Iansã, a protetora das mulheres, com seu vento feroz, a envolveu e a resgatou do perigo iminente. Omolu, senhor da cura, tratou de suas feridas físicas e emocionais, enquanto Nanã, a deusa da morte e da vida, ofereceu a Bertoleza uma nova chance de renascimento.


Com a ajuda de seu amigo Libério, que foi resgatada, rumo ao Quilombo AAbo, um espaço de liberdade e resistência. Lá, ela foi acolhida por mulheres guerreiras como Danara, que a ensinaram sobre sua verdadeira cultura e ancestralidade, tão duramente apagadas pela escravidão. Bertoleza aprendeu a utilizar as ervas enviadas pelos orixás, que não apenas curaram suas feridas, mas também a reconectarem à sabedoria ancestral que sempre esteve presente.


No quilombo, Bertoleza começou a se reconstruir, física e espiritualmente. Ao aprender a falar a língua proibida, ela se reconectou com sua história e identidade, resgatando as tradições que os colonizadores tentaram destruir. A vida no quilombo era marcada pela coletividade e pela liberdade, onde as crianças corriam sem medo, aprendendo sobre seus ancestrais e cultivando uma cultura de resistência.


Com o passar do tempo, Bertoleza se tornou uma líder respeitada na comunidade. Junto com Danara e outras mulheres, ela se uniu à luta contra a escravidão, transformando sua dor em força e sua história em um exemplo de coragem. Agora, livre e curada, Bertoleza não apenas sobrevive, mas vive para proteger seu povo e transmitir as lições dos orixás e a riqueza de uma cultura que nunca poderia ser apagada.


Assim, a trajetória de Bertoleza se transforma em uma poderosa narrativa de resistência e empoderamento, tornando-a um símbolo da luta negra no Brasil e da capacidade de renascimento, conhecida por todas como Amina, resgatando por vez sua ancestralidade.



Bibliografia

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Editora Cidadania, Prazer de ler. 2019 

Rezende de Tuzino Dámaris, e Blanco vidotte Cristina Maria Tárrega.Colonialidade do Corpo Feminino Negro: Trabalho Reprodutivo no Período Escravocrata Brasileiro e Justiça Racial", Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega. Publicado na Revista Videre (vol. 13, n. 27, maio/ago. 2021)

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