LILITH: sinônimo de insubmissão e poder - por Emanuelle Silva Corrêa

 LILITH: SINÔNIMO DE INSUBMISSÃO E PODER

Sendo uma das figuras mais conhecidas atualmente no mundo pop, Lilith é referenciada em pinturas, filmes, séries e músicas. Contudo, até a versão que conhecemos hoje em dia ser consolidada, o mito de Lilith passou por uma grande modificação durante os anos. Demônio, bruxa, mãe dos demônios, a primeira esposa de Adão são muitos dos títulos que se interligam a essa personagem. 


A versão mais difundida atualmente é a de que Lilith seria a primeira mulher de Adão, criada junto a ele do barro, diferente de Eva, que, segundo a Bíblia, foi criada da costela do homem. Lilith teria se recusado a se submeter a Adão e por isso teria sido expulsa do Jardim do Éden. No imaginário popular, muitos pensam que ela se juntou ao próprio Diabo se tornando sua mulher, como uma rainha do inferno, essa representação foi feita na série O Mundo Sombrio de Sabrina (2018), adaptação da Netflix baseada na história em quadrinhos de mesmo nome. Como citado nos sites, é visto que se utilizam de elementos da Bíblia para justificar uma possível aparição de Lilith na Criação, pois em Gênesis 1:27 é mencionado a criação do homem e mulher: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” No capítulo seguinte, Gênesis 2, é novamente descrita a criação do homem, porém de forma mais detalhada e sem a criação da mulher, contada apenas depois. 


O nome Lilith é sim mencionado na Bíblia, mas sem qualquer relação a Adão, em Isaías 34:14: “o cabrito selvagem chamará seus companheiros; aí Lilit vai descansar, encontrando um lugar de repouso.” Nesse trecho, a figura Lilit é mencionada junto ao cabrito, uma figura muitas vezes relacionada ao “demônio” ou como “um símbolo do mal”. Em algumas traduções também se utiliza do termo “bode selvagem” ou “sátiro”. Porém, partindo da etimologia do nome Lilith, Moura (p. 5-6) afirma que o profeta Isaías poderia estar se referindo a uma coruja-das-torres, conhecida no território brasileiro como rasga-mortalha e não ao demônio feminino.  Sendo essa a única citação de Lilith da Bíblia, percebemos que ela não tem um papel de destaque na mitologia cristã, mesmo que os trechos de Gênesis supostamente a mencionassem, ela é deixada de lado nesse cenário. 


Essa narrativa de Lilith como mulher de Adão é retirada de um documento intitulado de Alfabeto de Ben Sira, uma coletânea de textos eróticos-satíricos que dialoga com as questões do povo hebraico na época de 7.00 a 1.000 d.C. Nesse texto, Deus criou Adão, mas criou Lilith da terra impura, entretanto, desde o começo havia uma tensão entre eles. No ato sexual, Adão queria que Lilith ficasse por baixo dele, ela se revoltou, saiu do Éden e passou a voar pelo mundo. Então, Adão chamou Deus e Ele enviou anjos atrás de Lilith, mas quando eles a encontraram, ela continuou se recusando a voltar, os anjos a condenaram a parir centenas de demônios que nasceram mortos todos os dias. Para que eles não a afogassem, Lilith então fez um acordo: ela amaldiçoaria os recém-nascidos, os meninos até o oitavo dia de vida e as meninas até o vigésimo dia, mas pouparia os que tivessem os amuletos. Esses amuletos tinham preces que pediam a Deus proteção contra a “mãe de todos os demônios.”


Versões do mito desse demônio chamado Lilith são encontradas em diferentes povos do Oriente Médio, se modificando e misturando seus elementos. O nome Lilith poderia ser usado para determinar classes de demônios, ora para um demônio híbrido de mulher e animal. Na civilização assíria, esse demônio era ligado a males que afetam os homens, podendo causar até a morte. Na mitologia babilônica parecia  ser vista como enganadora, sendo seu objetivo  causar a queda dos homens. Já os egípcios a associaram com uma divindade lunar. Com os gregos é possível ver uma semelhança entre a deusa da noite e bruxaria, Hécate e os mitos que serpenteiam a figura de Lilith, ambas seduzindo homens para matá-los. No século 13 a.C., os atores cabalistas Jacob e Isaac Hacohen trazem uma adição para a história de Lilith e Adão: depois de sair do Éden, ela teria se deitado com Samael, o anjo da morte e, poucas décadas depois, Zohar também usaria desse mito para colocar Lilith como um espírito invejoso, que cobiça o homem e odeia a mulher, e por esses motivos tenta destruir os filhos deles. Discordando da ideia de Lilith ser a primeira mulher de Gênesis, ela a coloca como a serpente do Paraíso. 


Passeando por essas mitologias, é perceptível que alguns elementos sempre se repetem: a associação dessa personagem com o noturno, a indecência, aos males sexuais que assombram aos homens e até mesmo como um espírito que os seduz e induz a errar, também é a culpada dos males que sofrem as grávidas e os recém nascidos. Poderíamos ver uma ligação quase direta do mito às perseguições das “bruxas”, aquelas que não se casavam ou se revoltaram contra os homens e por isso eram aquelas que causaram a morte e doenças em recém nascidos. Contudo, assim como essas mulheres, Lilith é apenas “culpada” daquilo que a ignorância não permite enxergar, símbolo de insubmissão perante o patriarcado, sendo punida apenas pelo ato de não obediência e de querer ser vista como igual. 


No mundo moderno, a figura de Lilith passou de um mito sobre um demônio para se tornar um símbolo de revolta e resistência, sendo cultuada até mesmo como deusa de algumas religiões e da bruxaria, deixando de lado o “maligno” para representar o “sagrado feminino”. Como dito anteriormente, essa personagem virou um símbolo da cultura pop, principalmente feminina, além da série da Netflix, onde aparece como a Madame Satã, que primeiramente parece apenas como uma serva de Lúcifer e vai ganhando espaço, chegando até a se tornar rainha do Inferno, Lilith também aparece na série Supernatural (2005) como um poderoso demônio e na série Lúcifer (2016) onde ela é mãe de poderosos demônios, amiga de Lúcifer, mas decide viver uma vida como uma humana normal depois de ser uma estrela nos anos 50. A releitura mais recente dessa figura foi no jogo Diablo IV, onde ela é a mãe da humanidade e criadora de um mundo chamado Santuário, um lugar feito para ser protegido da guerra entre o Céu e o Inferno. Na música, temos a música Lilith da cantora Halsey, lançada no álbum de estúdio If I Can’t Have Love, I Want Power (2022), relançada em 2023 para o jogo já citado e também temos a música de mesmo nome da cantora brasileira Bea Duarte no álbum Mulheres que Correm (2023). 


Minha proposta com esse trabalho é deixar que Lilith conte sua própria versão, não se prendendo a todos os termos que a impuseram para contar sua história, mas sim da forma que ela vê sua própria história. Tendo como inspiração muitos dos recontos modernos, trouxe uma visão que mistura um pouco dos contos antigos para uma releitura que pudesse dar conta de um personagem tão complexo. Outro ponto principal para entender minha proposta é que a palavra poder tem dois significados, um é o sentido mais comum, agir e mandar, exercer soberania e outro é poder, querer, simplesmente ter a possibilidade de.



Poder, vida e renascimento


A menina se lembrava muito pouco do que havia acontecido antes… antes de ter morrido? Sim, ela lembrava de ter sido tirada de sua casa e ser levada à força até um tribunal, ter sido julgada por coisas que não havia cometido mas que a acusavam sem prova alguma, apenas com base nas palavras de um homem. 


Ele alegava o que queria, sem ter que provar nada e ela ao menos tinha o direito de falar. De se defender. Mas como ela poderia se defender se nem sabia o porquê estava sendo acusada. 


E seu destino foi igual a tantas outras… morreu enforcada. 


Lembrava que a última coisa que viu quando colocavam a corda em seu pescoço foi uma coruja, ao longe, em cima de uma árvore, observando tudo, olhando diretamente para ela e foi como se ela dissesse… Não tenha medo. Se não estivesse prestes a morrer, aprenderia a si mesma por imagem aquele tipo de coisa, mas agora que estava prestes a morrer, que mal teria? Já estava condenada mesmo.


Sabia que seria enterrada fora do cemitério e não teria paz em sua morte.


Ela morreu. Sabia disso. Então… por que estava agora fora de sua própria cova… em carne e osso encarando o buraco de onde havia quase que sido puxada para fora.


Nada fazia muito sentido, mas enquanto estava enterrada, sentiu uma onda avassaladora que gritava por vida e quando conseguiu ao menos colocar a mão para fora da terra, foi puxada para cima. Contudo, quando chegou à superfície… não havia ninguém lá.


 — Pensei que demoraria a acordar — Uma voz tão suave quanto seda falou atrás da mulher.


Ela deu sobressalto e se virou de imediato, ficando ainda mais estupefata ao ver a outra mulher ali… Sua pele parecia reluzir a luz da lua, o vestido longo e vermelho era o mais luxuoso que já tinha visto na vida, o cabelo preto era tão bonito que dava vontade de tocar. Tudo nela esbanjava beleza, liberdade e poder… Nem mesmo um rei tinha tanto poder quanto essa mulher esbanjava. Não havia palavras que pudessem descrevê-la.


— Quem é você? — Pronunciou em resposta, mas suas palavras quase não saíam da boca.


— Depende de quem pergunta, minha querida. Tenho muitos nomes e descrições, um pouco bagunçadas, mas você pode me chamar de Lilith. — Ao terminar de falar, a mulher abriu um largo sorriso. 


— Eu… estou no Inferno? — A mulher perguntou aterrorizada enquanto voltava a olhar a própria cova.


— Não, querida. Eu te trouxe de volta dos mortos — Ela disse tranquilamente, se apoiando em uma pedra como se soubesse que a conversa ia ser longa.


— Por quê?


— Bruxas, demônios… Sempre desculpas para o que escolhem ignorar, sempre as culpadas das atitudes deles, não é? — Lilith suspirou, como se estivesse cansada. — Quer ouvir uma longa apresentação?


E mesmo que a mulher não tivesse confirmado nem negado, Lilith começou: “No princípio, eu fui criada junto ao homem, Adão. Do mesmo barro, da mesma maneira, por Deus. E eu gostava dele, na verdade, olhando para trás agora, não consigo dizer se realmente gostava dele ou só achava que sim, porque bem… Era eu e ele naquele vasto jardim. Aturei muitas das coisas que ele queria, porque afinal eu tinha, não tinha? Por que eu tinha? Então, um dia, eu decidi não ser mais aquilo que ele queria, ousei, desejei ter vontade e como em um estalar de dedos, tudo mudou. Eu não era mais… tolerável. Adão chamou Deus e Ele me expulsou do Paraíso, me substituiu por outra, e tudo porque eu ousei ser mais do que o que Adão queria de mim. Feita a partir de uma costela? O que eu sinto por Eva é pena por ter que aturar aquele homem terrível. Era esse o preço do Paraíso? Então eu não queria. E por isso eu fui castigada. Demônio, invejosa, perseguidora de mulheres e bebês, a grande culpada pelos pecados dos homens, como se eles precisassem de um grande empurrão para cometerem atrocidades.”


“Vejam o que fazem com mulheres agora, as condenam com base em quê? Em achismos? Por que estão fazendo pactos imaginários com o demônio? Como se os próprios não dessem a própria alma de boa vontade por apenas algumas barras de ouro. Você deve se perguntar se eu deitei com o Diabo… Hmm, por que não? Na verdade, somos ótimos parceiros depois que eu o ajudei”. Lilith riu como se estivesse contando uma piada. “Gosto de quando me chamam de Mãe de todos os demônios. Nem todos são meus filhos, mas aprecio quando eles espalham o caos. Perseguidora de mulheres e bebês? Ora, por que eu faria isso? Na verdade, acho que não é de mim que precisam ser protegidas.” Ela deu uma olhada na moça em sua frente, como se seu argumento se completasse sozinho. 


“Se eu assombro homens? Apenas os que merecem, pareço tão má assim? Depois de tudo que eles sentem mais do que livres para fazer. Aprisionam mulheres, caçam a si mesmos e depois eu que sou a corrompida? Por que eu me amei mais do que amei um homem? Sabe, eu até cheguei a pensar que eu era malvada demais, que eu tinha saído muito da linha, mas depois de tudo que me transformaram depois de um simples ato de negação… Decidi que faria valer o que fizeram com meu nome.”


“Eu dou poder às mulheres se elas assim quiserem, as tiro de suas covas que os homens enfiaram para que possam viver uma nova vida e foi exatamente o que eu fiz com você.”


Lilith se levantou, vindo em direção a moça recém revivida, era quase como se ela deslizasse com toda sua imponência e a luz da lua a seguia como uma fiel companheira.


— Te dei uma nova chance, quer me seguir? A escolha é sua, se não quiser, te deixo voltar para sua cova e descansar eternamente, é só isso que vai acontecer — Lilith soou resiliente, demonstrando que sua palavra seria cumprida.


A garota olhou para sua cova, para onde tinha sido levada à força e injustamente. Sua vida tinha sido arrancada sem que tivessem feito nada de errado. Ela podia ter uma nova vida agora.


— Eu vou com você. — Falou de cabeça erguida, tão certa como nunca havia soado na vida. 

Lilith sorriu, um sorriso verdadeiro e acolhedor.


— Um nome novo seria bom para te acompanhar nessa nova vida. 


A garota pensou, olhando ao redor. Poderia agora escolher seu próprio nome…?


— Agatha, meu nome vai ser Agatha — disse com o gosto de poder na língua.


— Venha, Agatha. — Lilith estendeu a mão para ela e Agatha aceitou de bom grado, assim começaram a andar. — Você agora é uma das minhas Filhas. Sabem o que chamam de bruxas? Tirando os sacrifícios de crianças, algumas coisas são reais.


— E… Lúcifer? — Agatha perguntou enquanto caminhavam pela floresta.


— Eu espero até que as seguidores dele se cansem das ordens dele e venham até a mim. Ele não é conhecido por ser uma das pessoas mais fiéis do mundo.


— Você não era parceira dele?


— Exatamente, parceira enquanto ele tem algo a me oferecer. Lucifer facilmente me viraria as costas no momento em que não me julgasse mais útil, então eu traí antes, silenciosamente. — Lilith falava de uma forma descontraída, se divertindo. — Me aliei a ele até enquanto ele era útil para mim.


— Você é tão poderosa quanto ele? — A cabeça de Agatha borbulhava com as informações que recebia.

Lilith apenas assentiu, vendo a fagulha florescer na jovem Agatha. 


Chegaram então em uma clareira, escondida no fundo da floresta, onde, em círculo, um grupo de mulheres estava reunido. Elas cantavam, tocavam instrumentos, dançavam do jeito que queriam. Riam alto, muito alto enquanto dançavam com sátiros, alimentavam os animais e bebiam o quanto queriam.

Elas riam porque eram livres.





Referências bibliográficas

MOURA, Felipe. Lilith: Mitos e Verdades. Docero Brasil, 12 abril 2021. Disponível em: lilith - mitos e verdades - Baixar pdf de Doceru.com. Acesso em: 28 outubro 2024.  

VENTURA, Dalia. Quem foi Lilith, ‘primeira mulher de Adão’, e por que ela renunciou ao Paraíso. BBC NEWS BRASIL, 20 março 2023. Disponível em: Quem foi Lilith, 'primeira mulher de Adão', e por que ela renunciou ao Paraíso - BBC News Brasil. Acesso em: 04 novembro 2024.

Lilith - Núcleo de Pesquisas em Direito e Feminismos. Universidade Federal de Santa Catarina, 2020. Disponível em: https://lilith.paginas.ufsc.br/sobre/lilith/. Acesso em: 04 novembro 2024.

NEVES, Daniel. Lilith: a primeira mulher de Adão?. História do Mundo, s. d. Disponível em: Lilith: a primeira mulher de Adão? - História do Mundo. Acesso em: 04 novembro 2024.

SARTO, Giovanna. Revisitando o mito de Lilith: um estudo sobre indecência e libertinagem em diálogo com a teologia queer de Marcella Althaus-Reid. Universidade Federal de Juiz de Fora, 15 fevereiro 2022. Disponível em: Repositório Institucional - UFJF: Revisitando Lilith: um estudo sobre indecência e libertinagem em diálogo com a Teologia Queer de Marcella Althaus-Reid. Acesso em: 04 novembro 2024. 

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