Dânae: resistência e proteção feminina no fiar de seu destino - por Laura Duarte Cavalcante
Dânae: resistência e proteção feminina no fiar de seu destino
1. A escolha da personagem
No contexto da mitologia greco-romana, a personagem Dânae (ou Dánae) foi uma das diversas representações femininas cuja história desenvolveu-se meramente em função do avanço de outras narrativas, nas quais o homem é o personagem de destaque e a mulher é posta como um artifício utilizado para o desenvolvimento de sua história, sendo pouco mencionada ao longo do percurso. A partir dessa percepção, é possível perceber que o papel feminino é comumente retratado sob uma ótica masculina, na qual o reconhecimento de sua identidade, seus desejos e anseios, bem como o seu potencial, são minimizados à incontestável subordinação feminina. A construção desse pensamento gerou inúmeras histórias na literatura clássica nas quais a mulher é aquela cuja principal função é oferecer a sua obediência a um homem - por vezes, um deus - e, assim, ser retratada de maneira singela, não memorável, sem influência e sofrendo um apagamento de seus feitos. Ou, ainda, há uma segunda possibilidade para o destino de uma personagem feminina: a tragédia. Frequentemente, quando não anuladas na história, essas personagens são condenadas a um final trágico, o que normalmente ocorre como forma de punição por alguma insubordinação praticada. Pode-se crer, também, no trabalho convergente entre literatura e sociedade: não foi somente o pensamento patriarcal que fomentou a criação de uma literatura na qual a visão sobre a mulher é marcada por uma organização social hierárquica entre homens e mulheres, mas sim, a construção desse pensamento - embasado na superioridade do homem, o qual foi enraizado na sociedade há longos séculos - que foi originada a partir da propagação dos mitos gregos antigos, os quais ilustram mais do que apenas aventuras de deuses e heróis, mas também narram um modo de vida e, segundo a crença, a origem do mundo. Desse modo, é perceptível o protagonismo masculino na literatura da Grécia Antiga na qual existem diversas obras pautadas sob essa temática, como os poemas épicos Ilíada e Odisseia, de Homero. Também percebe-se o final trágico presente em mitos como Antígona, no qual a personagem Antígona desafia inúmeras figuras masculinas, inclusive um rei, em nome da luta por um sepultamento digno de um de seus irmãos, Polinice, o que causa a sua própria morte. Assim também, unindo ambos os cenários, há a narrativa da princesa Dânae, a qual é muito curta e apenas brevemente mencionada em algumas obras, como no poema Metamorfoses de Ovídio, além de ter sido retratada - somente a imagem do momento da fecundação - por alguns pintores.
Logo, a escolha de Dânae foi feita com a finalidade de introduzir a personagem a uma interpretação que não a ponha em um plano secundário, além de dar destaque aos absurdos sofridos por ela, mesmo que normalizados tendo em vista o seu contexto. Assim sendo, a intenção deste trabalho é retratá-la sob uma nova perspectiva, colocando-a em posição de protagonismo e não de apenas uma ferramenta utilizada para as histórias de personagens masculinos.
2. A personagem na obra literária de referência
Dânae, na mitologia grega, era uma princesa, filha de Eurídice com Acrísio, o rei de Argos, uma cidade da Grécia Antiga. Sua aparição na literatura surge a partir de uma das atitudes de dominação advindas de um homem contra ela: a história conta que seu pai, o rei Argos, possuía uma preocupação por não possuir herdeiros homens e, em razão desse temor, consultou um oráculo que o informou acerca de seu futuro. De acordo com o oráculo, o rei seria assassinado futuramente por um filho de Dânae, o que o amedrontou e, almejando fugir de seu infortúnio destino, aprisionou a jovem e virgem Dânae em uma torre feita de bronze, para que ela nunca tivesse filhos. Ao fazer isso, sua intenção era a de evitar a concretização da profecia que o causava medo, mesmo que em detrimento da vida e liberdade de sua filha. Acontece que, mesmo diante de seus esforços para que a filha não lhe desse um descendente, o rei não poderia impedir os feitos de um deus. Assim, Zeus, considerado não somente o rei dos deuses, mas também um dos responsáveis pela função de "fecundar" a terra, se encantou pela princesa e a fecundou, tornando-a mãe de Perseu.
"O Argólico Perseu, prole do nume
Que a Dânae seduzira em áurea chuva.’’
OVÍDIO. Metamorfoses (IV, 615-662). Trad. Manuel Maria Barbosa du Bocage, 2016.
De acordo com o poema, Zeus metamorfoseou-se em uma "chuva de ouro" que transpassou pelas fendas da porta da torre para fecundar Dânae, o que pode ser interpretado como um ato de abuso, visto que não é mencionado qualquer tipo de decisão tomada pela princesa, somente as consequências sofridas pelo autoritarismo exercido sobre ela. Considerando as diversas interpretações acerca desse momento, a metamorfose de Zeus em especificamente uma chuva de ouro, pode ser relacionada com a visão cultivada sobre a água como não só um meio para o renascimento, como é mencionada em várias histórias, mas também como o princípio da vida. Nesse sentido, é indubitável que na mitologia grega uma das funções exercidas pela água é a de fertilização, o que permite a compreensão acerca do porquê Zeus assumiu a forma de chuva e não outro elemento ou ser. Assim sendo, como resultado, ao ter consciência do ocorrido, Acrísio ordenou a morte da dama de companhia de sua filha, pois possuía a crença de que a moça havia ajudado, de alguma forma, na ocorrência desse acontecimento. Por consequência, após o nascimento do filho de Dânae, Perseu, seu pai a trancou juntamente com seu filho em um cofre de madeira e, em seguida, os jogou no mar. Dânae e seu filho Perseu, após serem levados pelas ondas e sobreviverem em razão do auxílio de Zeus, que ordenou ao deus Poseidon que acalmasse os mares, chegaram na ilha de Sérifo, comandada pelo rei Polidectes. Na ilha de Sérifo, ambos foram resgatados pelo irmão do rei Polidectes, Dictis, o qual futuramente tornou-se responsável pela educação de Perseu. De acordo com algumas versões do mito, eventualmente o rei Polidectes se encantou por Dânae, entretanto, Perseu a mantinha longe de quaisquer tentativas do rei. Visando afastar o filho de Dânae, Polidectes desafiou Perseu a decapitar a Górgona - Medusa - para que, em troca, ele não violentasse sua mãe Dânae. Prontamente o herói aceitou seu desafio, partiu em busca de Medusa e, posteriormente, retornou à ilha de Sério com sua cabeça em mãos e, então, obteve a descoberta de que Polidectes não cumpriu com a palavra e, diferentemente do que havia dito, tentou abusar de Dânae, a qual foi acolhida novamente por Dictis. Da mesma forma que Dânae sofreu devido às ações de um primeiro homem, seu pai, e sofreu novamente uma segunda vez, pelas mãos de um deus, sofreu também pela terceira vez, com a tentativa de violência por parte do rei Polidectes contra ela. Ou seja, a dominação masculina perante o corpo feminino foi imperiosa em três momentos diferentes da vida de Dânae, contudo, em nenhum desses momentos lhe foi dada a voz; a personagem foi, então, posta de lado em sua própria narrativa.
Em suma, é interessante mencionar que, segundo algumas leituras antigas, o acontecimento da fecundação da princesa por meio de uma chuva de ouro também é interpretado como Dânae vendendo-se à Zeus em troca de algumas moedas de ouro, possivelmente para a subordinação de seus guardas. No entanto, não existem citações que possam apoiar uma hipótese incongruente como essa, a qual perpetua o pensamento de que mulheres são movidas pelo dinheiro - o que, no contexto de aprisionamento vivido por Dânae, seria uma atitude de difícil julgamento - além de ter a intenção de apontar a personagem como um arquétipo de prostituta.
Referência da obra: Danaë (1623) por Orazio Gentileschi.
3. A história reescrita
Personagens: Dânae, Calisto, Cloto, Láquesis, Átropos, Acrísio, Zeus.
Com a sua liberdade roubada, Dânae, a jovem princesa de Argos, foi presa em uma grande e distante torre de bronze por ordem de seu pai, o rei Acrísio, que temia a realização de uma profecia narrada pelo oráculo ao qual ele havia consultado: ele seria assassinado por um filho de Dânae. Na torre, onde havia contato somente com sua dama de companhia, Dânae se preparava para passar o resto de seus dias e questionava-se sobre a injustiça que estava sofrendo, sem saber como poderia arrancar-se para fora dali. A princesa analisava cada parede da torre, buscava calcular em sua mente quantos metros de tecido poderia obter ao juntar todos os lençóis que lá haviam, refletia sobre à qual deusa poderia pedir por ajuda e ser atendida, tentando de todos os modos esquivar-se de seu atual destino. Enquanto isso, Zeus, o deus dos céus, dos raios e dos trovões, avistou Dânae e se encantou por ela, fascinado por sua beleza física e sua condição desamparada. Admirado pela princesa, Zeus estava prestes a metamorfosear-se em uma chuva de ouro para que, assim, penetrasse a torre por entre as frestas da porta e, inopinadamente, fecundar Dânae.
Foi assim, diante do desconsolo e inquietação de Dânae, que as Moiras, as três irmãs tecelãs do destino de deuses e mortais, figuras femininas de aparência considerada sombria, compadeceram-se por ela e decidiram interpor-se entre Dânae e o deus Zeus. Cloto - a irmã responsável por ser a fiandeira do fio do destino, cuja aparência mais jovem representava o começo da vida - recordou-se de como Dânae ainda estava em sua tenra idade e apiedou-se do prazer juvenil que lhe seria roubado se Zeus concluísse o que planejava e houvesse a fecundação. Láquesis - a irmã de aparência mais adulta, incumbida de traçar o fio da vida e decidir os sofrimentos que seriam encarregados a cada ser, bem como quais indivíduos seriam sorteados para a ida ao reino da Morte - juntou-se à sua irmã em seu enternecimento pelo - até então - destino de Dânae, enxergando nela uma das inúmeras mulheres postas em situações atribuladas em virtude dos caprichos de Zeus. De maneira serena e pouco enérgica, a terceira irmã, Átropos, cuja aparência de uma mulher idosa representava a sua imperiosa função de cortar o fio da vida - com o auxílio de sua tesoura encantada - testemunhou a angústia de suas irmãs e, então, concentrou sua atenção na escuta de suas opiniões.
Ambas as tecelãs, Cloto e Láquesis, sofriam em profunda aflição e lástima pelo o que aguardava Dânae em seu futuro próximo e desejavam interferir, unindo-se como o início, meio e fim da vida para remodelar a história daquela por quem se compadeceram. As Moiras, representantes do Destino enquanto feminino, à face da perversidade do deus dos céus e à desgraça de Dânae, usam a Roda da Fortuna e começam, então, a traçar um novo destino para a princesa, conferindo-a a boa sorte que lhe faltava. Para que o destino de Dânae fosse traçado, optaram pela ajuda de Calisto como fonte de conhecimento para Dânae sobre sua nova história. Calisto era uma mulher corajosa e com boas habilidades de caça, que poderia ajudar Dânae em sua fuga, mas não apenas isso. Ela era uma mulher que, em seu passado, havia sido enganada por Zeus e vítima da ira de Hera - esposa de Zeus - que a transformou em um urso e, posteriormente, foi mandada ao céu por Zeus, que a transformou na Ursa Maior. Lembrando do destino de Calisto, as Moiras souberam que ela aceitaria ajudar Dânae, não somente por sua compaixão mas também pelo desejo de impedir Zeus. Assim, com o aval de Calisto, as Moiras a enviaram de volta à Terra com a missão de impedir que Zeus realizasse a fecundação e de fazer Dânae conhecedora de seu Destino: as Moiras decidiram que ela se tornará uma protetora das mulheres, especialmente das humanas, contra Zeus.
Calisto retorna à Terra e confronta Zeus sobre sua maneira de agir com as mulheres, ela consegue abrir a porta da torre e encontra Dânae. Uma vez dentro do quarto em que Dânae está, Calisto conta à princesa sobre a sua missão de impedir que Zeus cometa uma de suas transgressões e faça mal a outras mulheres e como ela deve trilhar seu caminho dali em diante de maneira livre. Calisto se transforma em um urso novamente e distrai os guardas da torre para que Dânae fuja para viver sua independência e, após a fuga, Calisto retorna ao céu. As Moiras, então, seguem traçando o novo destino de Dânae, que viveria longe de sua torre, habitando diversos lugares, sempre em busca daquela que precise de sua proteção.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] OVÍDIO. Metamorfoses (IV, 615-662). Trad. Manuel Maria Barbosa du Bocage, 2016.
[2] WILLIAN, Lucas; MARCIANO, Oliveira. A simbologia da água na poesia de Ruy Cinatti. Para que a vida seja palavra.
[3] VERA, Traver; JACINTO, Ángel. El mito de Dánae: interpretación y tratamiento poético desde los orígenes grecolatinos hasta los Siglos de Oro en España. Cuadernos de Filología Clásica. Estudios latinos, v. 11, p. 211-234, 1996.
[4] GONÇALVES, Ana Teresa Marques; NETO, Ivan VIEIRA. Uranos, Cronos e Zeus: a mitologia grega e suas distintas percepções do tempo. Mirabilia: Electronic Journal of Antiquity, Middle & Modern Ages, n. 11, p. 1, 2010.
[5] BRANDÃO, C. O mito de Perseu e o rito iniciático do herói. Academia. Goiânia: Universidade Federal de Góias, 2010.
[6] GOMES, Ana Rita Lima; DA GAMA SOBRAL, Luciana Onety. OS DEMÔNIOS FEMININOS: A DEMONIZAÇÃO DA MULHER E SUA RELAÇÃO COM A CULTURA DO ESTUPRO.
