Gênesis - por Isabella Paranhos
GÊNESIS 1
O começo
No princípio criou a deusa o céu e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo; e o Espírito da Deusa se movia sobre a face das águas.
E disse a deusa: “haja luz”, e houve luz.
Viu a Deusa que era boa a luz; e então decidiu separar a luz das trevas.
A deusa chamou a luz de dia, e às trevas chamou de noite. Passaram-se a tarde e a manhã; e assim foi o primeiro dia.
Depois disse a Deusa: “Haja entre as águas um firmamento que separe águas de águas”.
Então a Deusa fez o firmamento e separou as águas que ficaram abaixo do firmamento das que ficaram por cima.
Ao firmamento, a Deusa chamou céu. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o segundo dia.
E disse a Deusa: “Ajuntem-se num só lugar as águas que estão abaixo do céu, e apareça a parte seca”. E assim foi.
À parte seca a Deusa chamou terra. E chamou mares ao conjunto das águas. E a Deusa viu que ficou bom.
Então disse a Deusa: “Cubra-se a terra de vegetação: plantas que deem sementes e árvores cujos frutos produzam sementes de acordo com as suas espécies”. E assim foi.
A terra fez brotar a vegetação de acordo com o que a Deusa havia dito. E a deusa viu que ficou bom. Passaram-se a tarde e a manhã, esse foi o terceiro dia.
Disse a Deusa: "Haja luminares no firmamento do céu para separar o dia da noite. Sirvam eles de sinais para marcar estações, dias e anos, e sirvam de luminares no firmamento do céu para iluminar a terra". E assim foi.
A Deusa fez os dois grandes luminares: o maior para governar o dia e o menor para governar a noite; fez também as estrelas.
A Deusa os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, governar o dia e a noite, e separar a luz das trevas. E a Deusa viu que ficou bom.
Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o quarto dia.
Disse também a Deusa: "Encham-se as águas de seres vivos, e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento do céu".
Assim a Deusa criou os grandes animais aquáticos e os demais seres vivos que povoam as águas, de acordo com as suas espécies; e todas as aves, de acordo com as suas espécies. E a Deusa viu que ficou bom.
Então a Deusa os abençoou, dizendo: "Sejam férteis e multipliquem-se! Encham as águas dos mares! E multipliquem-se as aves na terra".
Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o quinto dia.
E disse a Deusa: "Produza a terra seres vivos de acordo com as suas espécies: rebanhos domésticos, animais selvagens e os demais seres vivos da terra, cada um de acordo com a sua espécie". E assim foi.
A Deusa fez os animais selvagens de acordo com as suas espécies, os rebanhos domésticos de acordo com as suas espécies, e os demais seres vivos da terra de acordo com as suas espécies. E a Deusa viu que ficou bom.
A Deusa viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o sexto dia.
Assim foram concluídos os céus e a terra, e tudo o que neles há.
No sétimo dia a Deusa já havia concluído a obra que realizara, e nesse dia descansou.
Abençoou a Deusa o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que realizara na criação.
GÊNESIS 2
Eva e Adão
Esta é a história das origens dos céus e da terra, no tempo em que foram criados.
Quando o Deusa fez a terra e os céus, ainda não havia brotado nenhum arbusto no campo, e nenhuma planta havia germinado, porque a Deusa ainda não havia feito chover sobre a terra, e também não havia mulher para cultivar o solo.
Todavia brotava água da terra e irrigava toda a superfície do solo.
Então a Deusa formou a mulher do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e a mulher se tornou um ser vivente.
Ora, a Deusa tinha plantado um jardim no Éden, para os lados do leste, e ali colocou a mulher que formara.
Então a Deusa fez nascer do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para alimento. E no meio do jardim estavam a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal.
A Deusa colocou a mulher no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo.
E a Deusa ordenou a mulher: "Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal.”
Então a Deusa declarou: "Não é bom que a mulher esteja só; farei para ela alguém que a auxilie e lhe corresponda".
Depois que formou da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, a Deusa os trouxe a mulher para ver como esta lhes chamaria; e o nome que a mulher desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome.
Assim a mulher deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens. Todavia não se encontrou para a mulher alguém que a auxiliasse e lhe correspondesse.
Então a Deusa fez a mulher cair em um profundo sono e, enquanto esta dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne.
Com a costela que havia tirado da mulher, a Deusa fez um homem e o levou até ela.
Disse então a mulher: "Este, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ele será chamado homem, porque da mulher foi tirado". E se chamarão Eva a mulher, e Adão o homem que veio da mulher.
A mulher e o homem viviam nus, e não sentiam vergonha.
Adão sabia que não deveria comer o fruto proibido, uma vez que Eva o havia alertado.
Entretanto, quando o homem viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o ofereceu a sua companheira que negou, falando que era errado o que havia feito, uma vez que a Deusa havia alertado para que não comessem.
A Deusa vendo uma agitação decidiu aparecer para eles, e vendo como Adão se escondera, indagou sobre sua possível desobediência: “Comeste tu do fruto da árvore do bem e do mal?”
Respondeu o homem: “Ela parecia apetitosa e não entendo porque não deveríamos comer dela”
Então a Deusa declarou ao homem: “Visto que você me desobedeceu e comeu do fruto da árvore da qual ordenei a você que não comesse, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você e seus descendentes se alimentarão dela pelo resto de sua vida.”
E Eva tomou por si a decisão de intervir, rogou a Deusa que lhe permitisse falar.
Eva então disse a Deusa: “Mãe, entendo que estejas enfurecida pela desobediência de Adão. Mas não acho que seja correto ou justo punir ele e toda a nossa descendência por tal feito.
Disse a Deusa à Eva: “O que quer dizer com isso minha filha? Ele foi avisado de que não deveria comer o fruto.”
E Eva respondeu: “A senhora não nos disse o que aconteceria se comêssemos o fruto, apenas disse para não comermos. Entretanto, é do ser humano a curiosidade e o questionamento. Talvez tenha sido esse o motivo que levou Adão a comer o fruto.”
A Deusa ouviu Eva e embora não estivesse contente com o que o homem havia feito, concordou que punir toda a geração que viria a seguir seria injusto, e também entendeu o motivo que poderia ter levado o homem a fazer tal coisa. Ouviu as palavras de Eva com empatia e sabedoria e concordou em tirar a árvore do fruto proibido do jardim para que mais ninguém fosse tentado a comer dali.
A Deusa conversou com Adão, e enquanto este dormia, apagou-lhe a memória. Conversou com Eva e pediu para ela não comentar sobre o ocorrido com o homem.
A mulher e o homem viveram ali por toda a eternidade com toda a sua descendência.
Ali não havia nenhum tipo de doença ou preconceito. Todos poderiam amar quem quisessem, e viver uma vida digna sem sofrimento ou luta.
A Deusa tornou o jardim um lugar de amor e respeito, sem mais coisas que pudessem tentar a seus filhos e filhas.
FIM
O motivo de eu ter escolhido falar sobre a Eva:
Como uma criança criada com os ensinamentos cristãos, havia muitas coisas da igreja e da bíblia que eu não entendia ou concordava; tampouco acreditava ser justo.
Decidi reescrever a história de Eva porque acredito que a narrativa bíblica foi injusta e cruel. Eva ao longo dos séculos foi retratada quase exclusivamente como a causadora da queda, a responsável pelo pecado original e também pela perda do paraíso. Para mim, Eva representa uma mulher curiosa, audaciosa e questionadora.
Também escolhi incluir uma deusa na história para explorar a comunicação, buscando enriquecer a narrativa com uma perspectiva de empatia e abertura para o diálogo, características que, tradicionalmente, acabam sendo menos exploradas quando os papéis principais são ocupados por figuras masculinas.
Gostaria também de esclarecer que a ideia para esta reescrita é original e não foi inspirada diretamente em nenhum texto de referência além da própria bíblia. Minha abordagem e interpretação dos personagens surgiram de reflexões pessoais e um desejo de mudar toda aquela narrativa que tanto me incomodava.
