Provações de Briseida - por Marcelo Augusto Ferreira Cordeiro

Provações de Briseida


Neste trabalho, irei comentar sobre a história de Briseida, personagem que aparece originalmente na Ilíada. Ela é introduzida já em um contexto trágico, em que após ter familiares e seu marido mortos por Aquiles durante a guerra de Tróia, a jovem é tomada por ele como um espólio de guerra. 

Posteriormente, é exigida por Agamemnon, como uma compensação por ter perdido a posse de Criseida, sua escrava sexual preferida, o que acaba sendo o estopim para Aquiles se retirar da guerra. Por fim, Briseida é devolvida para Aquiles após a morte de Pátroclo e simplesmente desaparece no resto da Ilíada, tendo um final incerto, pois sua existência cai no esquecimento. 

Sendo assim, em sua obra original, Briseida é reduzida a simplesmente uma personagem bela (Homero faz referência à sua beleza em quase todas as cenas em que ela aparece), e que apesar de aparentar haver uma espécie de romance entre os dois (ela e Aquiles), na Ilíada, ela acaba sendo tratada basicamente como um objeto, uma personagem que possui apenas uma fala em toda a obra, ou seja, uma personagem com pouquíssimo destaque no poema.

Já como uma segunda obra de referência, o livro A canção de Aquiles, escrito por Madeline Miller, traz uma perspectiva mais interessante e mais presente da personagem. Nessa narrativa, Briseida se encontra na mesma situação (se tornando um espólio de guerra), porém as circunstâncias de vários acontecimentos e relações com certos personagens é distinta, como, por exemplo, o fato de que ela se torna um espólio de guerra de Aquiles a pedido de Pátroclo, que pede que o herói grego a reivindique para tirá-la da posse de Agamemnon, que pretendia tê-la como escrava sexual. 

Essa obra retrata os acontecimentos da guerra de Tróia pela perspectiva de Pátroclo, e até por Briseida ter um envolvimento romântico com ele (nesse livro), a personagem aparece com bem mais frequência do que na Ilíada, com várias falas e muitos momentos interessantes. Apesar de sua maior presença e relevância, diferentemente da Ilíada, a personagem não simplesmente desaparece, mas acaba tendo também um trágico desfecho ao ser morta por Pirro (filho de Aquiles).  

Portanto, essa reescritura da história de Briseida tem como foco dar mais protagonismo e relevância para essa personagem, contando os acontecimentos da guerra de Tróia tendo ela como peça central da narrativa. Além disso, retirar a parte da opressão de ser tratada meramente como um objeto sexual, desenvolvendo de fato uma amizade com os dois heróis gregos (que não terão nenhuma relação romântica com ela). E, por fim, mostrar sua determinação para desafiar seu próprio destino trágico (desde o início da reescritura), ao ponto de desafiar novamente o destino para salvar seu amigo, e evitando também o desfecho de seu falecimento (mencionado na segunda obra).

A história começa do ponto semelhante ao da Ilíada, logo após Briseida ter tido sua família massacrada pelos mirmidões e prestes a se tornar prisioneira de guerra deles.


Reescritura da história da personagem 


Dentre os vários conflitos ocorridos na grande guerra de Tróia, diversos guerreiros, assim como civis, perderam suas vidas em meio a matança, e quando não a perdiam, se tornavam espólios de guerra, em sua grande maioria. O mesmo estava prestes a acontecer com Briseida, uma jovem da cidade de Lirnesso, que, após ter tido seus familiares assassinados, foi amarrada por um dos mirmidões, e assim que fora colocada sobre os ombros de um dos guerreiros, conseguiu desferir uma joelhada no queixo do guerreiro que a levava. 

— Desgraçada! Como ousa me agredir, mulher? — esperneou o guerreiro cambaleando.

— Ela não merece ser sua serva irmão, deveria executá-la! — disse outro soldado.

— Isso mesmo, mate-a! Mande-a ao submundo agora mesmo! Morte, morte, morte! — entoavam os mirmidões em uníssono.

—Vocês têm razão, irmãos, essa maldita não terá a honra de servir a mim! — disse o guerreiro cuspindo sangue após se recuperar do golpe.

Os homens aplaudiam enquanto gritavam, ansiosos pela execução.

— Por favor! Traga-me a morte mil vezes, mas não me condene a ficar ao lado de alguém como você! — disse Briseida após arrancar o pano em sua boca pressionando-o contra o chão.

O guerreiro e seus outros homens, revoltados com a jovem que ousava os retrucar, saca então sua espada e se prepara para golpeá-la no pescoço, quando a ação fora abruptamente interrompida.

— Não ouse matá-la! — gritou o temido Aquiles — Esta mulher será minha propriedade.

O homem estava prestes a golpear Briseida com sua espada em meio ao ar, quando saudou Aquiles, junto aos outros mirmidões. 

        Aquiles então se aproxima de Briseida para carregá-la, enquanto ela o encara com um olhar de ódio de mesma intensidade que encarava o guerreiro prestes a matá-la.

— Alto lá, guerreira, não sou como aquele covarde que se acha poderoso. É inclusive um dos mais patéticos dessa tropa. Confie e coopere comigo por enquanto — sussurra Aquiles enquanto olha com repúdia para o guerreiro mencionado.

Apesar de ainda relutante e tremendo de raiva, Briseida decide dar uma chance para o mirmidão, pois sentiu verdade em sua voz, e decide não se debater e deixar-se ser carregada nos ombros do guerreiro.

Ao chegar à tenda de Aquiles, Briseida confirma o que já suspeitava: Aquiles é o mais poderoso e respeitado guerreiro dos mirmidões. Por conta disso, ninguém ousou questionar sua ordem há poucas horas. Aquiles então desamarra Briseida e a coloca para sentar em um banco, enquanto a oferece um pano úmido para limpar suas feridas. A jovem, porém, logo entra em guarda novamente, quando avista um homem provavelmente da mesma idade de Aquiles, de cabelos pretos, que se levanta e começa a se aproximar deles. 

— Bem vindo de volta. Quem é essa que traz contigo? — indagou o homem

— Ela ia ser executada por um dos imbecis de nosso exército, decidi intervir pois comovido fiquei com sua demonstração de resistência. Você já presenciou isso mais de uma vez, normalmente as mulheres que se tornam espólios apenas sucumbem ao destino. Mas essa menina não aceitou isso, e desferiu um belíssimo golpe com o joelho no queixo daquele verme. Por sinal, ainda não nos apresentamos, meu nome é Aquiles, e este é Pátroclo.

— Briseida — respondeu a jovem ainda se recuperando do que acabou de acontecer.

Era nítido que ela ainda estava com medo e com raiva, e agora achava que Aquiles tinha, na verdade, a salvo para que ele e seu amigo se satisfizessem sexualmente com ela.

Ao notar o olhar de desconfiança e incômodo da jovem, Aquiles abraçou Pátroclo carinhosamente e assegurou à menina que ela não precisava se preocupar.
— Acalme-se Briseida, saiba que de você só solicito ajuda com a comida, mas, principalmente, boas conversas quando eu e Pátroclo retornarmos de um longo dia de batalha. Não tema quanto às questões carnais, essas, juntamente às amorosas, estão reservadas apenas para este homem em meu braços, e o mesmo vale para ele.

Briseida então consegue finalmente relaxar um pouco após o ocorrido, e se acalma ao saber que não está em perigo, ao menos por enquanto. Ela então adormece ainda no banco em que estava sentada sem ter tido tempo de limpar todas as suas feridas. Pátroclo então termina o que a jovem havia começado, e a coloca para descansar em uma espécie de rede pendurada no fundo da tenda. A jovem então acorda de madrugada, após ter tido pesadelos envolvendo a perda recente de seus entes queridos, e percebe que seus machucados foram limpos. Os dois guerreiros, ao notarem que ela despertou assustada, aproximam-se dela para tentar distraí-la por meio de conversas, e Briseida então agradece a eles por cuidarem de seus machucados.

Passam-se vários e vários dias, todos com uma rotina semelhante, Briseida passa o dia no acampamento, com liberdade para circular, pois sabia que ninguém ousaria mexer com a “serva” de Aquiles, enquanto aguardava pelo retorno dos dois guerreiros. Ao chegarem à tenda, exaustos de um longo dia de batalha, Briseida os ajudava a limpar seus corpos e armaduras manchadas de sangue, uma visão que nunca lhe foi agradável, porém ela ainda preferia isso à morte de um desses guerreiros, que eventualmente, depois de longas conversas sobre os mais variados assuntos e vários dias de convívio, amigos se tornaram. 

Agora, com o passar de alguns meses, é chegado um fatídico dia na guerra de Tróia. O rei de Micenas, Agamemnon, devido a motivos envolvendo a divindade Apolo, que lançara uma maldição sobre os gregos, é obrigado a devolver sua serva preferida, Criseida, de volta a seu pai, um sacerdote de Apolo, para que seu exército consiga voltar a avançar contra os troianos. 

        Por conta disso, o general das tropas gregas toma de Aquiles a sua “serva”, como compensação. O mirmidão então se revolta imensamente, sentindo-se extremamente desrespeitado por Agamemnon (que já havia tido desentendimentos anteriores com o guerreiro), devido à sua atitude e também devido ao vínculo que criou com Briseida. Aquiles, então, demonstrando sua insatisfação com a traição de seu general, decide se retirar da guerra de Tróia e se ausentar em sua tenda. 

Poucos dias se passam até que a trágica notícia chega aos ouvidos de Briseida: Pátroclo havia sido morto por Heitor em batalha. Chocada com a notícia da morte de seu amigo, ela cai em prantos, mas rapidamente se levanta.

— Agamemnon! — exclamou a jovem — Liberte-me agora, preciso ir ao encontro de Aquiles! O teu maior soldado precisa de mim mais do que nunca!

Assustado com o ímpeto da menina, Agamemnon, além de ter medo do que Aquiles poderia fazer com ele após a morte de Pátroclo, ordena que dois soldados a escoltem até a tenda de Aquiles. Chegando lá, Briseida encontra o mirmidão devastado, com os olhos já secos de tanto chorar, e com o corpo gélido do seu amor em seus braços. 

— Isso é impossível! Como isso aconteceria com ele enquanto lutando ao seu lado? — disse Briseida ao prantos, que não sabia, até então, da retirada de Aquiles da guerra.

— Ele… ele te violentou? — perguntou Aquiles, com a voz mais baixa do que nunca.

— Não, Aquiles. Agamemnon não ousou me tocar enquanto estive com ele, pois ele o teme mais do que os próprios inimigos. Mas isso não importa agora. Como isso foi acontecer? — Briseida gritou enquanto chorava abraçada ao corpo de Pátroclo.

— É minha culpa — Aquiles reuniu o que lhe restava de força para explicar — Nosso exército estava ficando encurralado, pois em represália a Agamemnon eu me retirei da guerra. Pátroclo então pegou minha armadura enquanto eu dormia e foi liderar os mirmidões, que sob o seu comando conseguiram afastar os avanços troianos. Infelizmente, o custo dessa vitória é esse em sua frente, o fim daquele que amo.

Briseida, apesar de desolada com a morte do amigo, passou a noite fazendo de tudo para consolar Aquiles, pois sabia o quão devastado ele estava.

— Sabe, há poucos meses eu perdi entes queridos de minha família, além de meu amado marido. Foi justamente no dia em que você me salvou daquele soldado maldito, e até agora não processei completamente essas morte. É um momento duro, meu amigo, assumo que nós não iremos nos acostumar com esse tipo de perda nunca, e mais especificamente quanto a ele… sem dúvida, fará muita falta. Tenha certeza apenas de que… aonde quer que Pátroclo esteja, ele está zelando por nós, e principalmente por ti — disse Briseida segurando a mão de Aquiles, enquanto ambos olhavam para o cadáver do companheiro.

No dia seguinte, homenagens foram prestadas a Pátroclo, e a cerimônia se encerrou com seu enterro. Briseida seguia muito abalada pela perda repentina, e muito preocupada com o estado de Aquiles. Durante uma semana, o grande herói grego se encontrava mais frágil do que um cristal, sem apetite para comer, sem lágrimas para chorar e sem forças para se levantar. Briseida passava o dia pensando em maneiras de tirar o guerreiro daquele estado deplorável, de tentar fazê-lo seguir em frente, mas ao mesmo tempo ela compreendia, tendo presenciado o amor dos dois durante alguns meses, o quanto Aquiles jamais seria capaz de se recuperar, ainda mais por ele se sentir responsável pelo ocorrido.

Após um decêndio, ao anoitecer, Aquiles se reergueu de repente na tenda.

— O que houve Aquiles, teve um pesadelo? — indagou Briseida

— Não, pois esse já vivo há dez dias. Retornarei amanhã ao campo de batalha, e só irei descansar quando a cabeça de Heitor estiver em minhas mãos.

— Não ouse fazer isso Aquiles! Você não está em condições de voltar para a guerra, você sabe muito bem que não é isso que Pátroclo iria querer — disse a jovem desesperada encarando os olhos sem vida do amigo — Isso é apenas uma desculpa para você se matar, não desonre o sacrifício dele dessa maneira!

— Ele… ele se foi, Briseida, não posso mais suportar isso. Sinto em lhe abandonar, minha amiga, mas amanhã, ao nascer do sol, irei ter minha vingança, e então, que os deuses me permitam encontrar Pátroclo novamente — disse o herói com a voz cheia de desespero.

Briseida continuou por um tempo discutindo com Aquiles, tentando convencê-lo a não desistir de sua vida, inutilmente, pois o guerreiro caído estava cego pela raiva e pela tristeza. Ela, então, decide fazer um apelo a Tânato, deus da morte, e pede para que ele a conceda a possibilidade de ir ao submundo conversar com seu falecido amigo, pois estava certa de que se houvesse alguém que pudesse ajudá-la a salvar Aquiles, seria o falecido amor do guerreiro. Decepcionada por suas preces não terem surtido efeito algum, assumindo-se ignorada pelo deus, Briseida, que já se encontrava esgotada de suas forças, cai no sono antes mesmo de Aquiles.

Quando a jovem acorda, ela se encontra confusa, em um local diferente do qual ela adormeceu. Ela estava cercada de campos verdejantes, arbustos esculpidos em formatos de grandes heróis, e rios cujas águas pareciam nuvens líquidas.

— Seja bem vinda aos Campos Elísios, minha convidada mortal — uma figura jovem encapuzada cumprimenta Briseida — Fiquei intrigado com sua solicitação, normalmente os mortais não costumam querer se envolver conosco, deuses ctónicos. Você não teme a morte?

— Claro que a temo, porém, para evitar a perda de mais um amigo, estou disposta a fazer tudo o que estiver ao meu alcance para salvá-lo — diz a jovem ainda assimilando tudo.

— Entendo. Você é de fato muito interessante, fico feliz de ter aceitado seu pedido.

— Você deve ser Tânato, correto? Diga-me, ao que me lembro, estava deitada em minha cama e agora acordei nesse lugar. Estou de fato aqui ou isso não passa de um sonho?

— As duas opções ao mesmo tempo. Veja bem, enquanto você dorme, pedi para meu irmão Hipnos, o deus do sono, que lhe concedesse acesso ao submundo enquanto você dorme, portanto, o que ocorrer aqui, durante sua estadia, terá de fato sido vivido por ti. Ande logo. Como uma mortal, não pode ficar aqui por muito tempo. Assumo que você tenha assuntos para tratar com um de nossos recém chegados, certo? — diz o deus apontando para Pátroclo.

Briseida se aproxima de seu falecido amigo. Sua aura melancólica estava maior do que nunca, enquanto este estava à beira de um rio, observando o infinito. Ao perceber sua aproximação, ambos se abraçam, antes mesmo de dizer qualquer palavra.

— Maldição! Que destino trágico você encontrou, meu amigo. Apesar disso, não posso reclamar, são poucos os que, ainda vivos, recebem a oportunidade de se reencontrar com um ente querido já falecido — diz a jovem com lágrimas no rosto.

— De fato, também agradeço a visita, apesar de saber que seu objetivo principal não é simplesmente rever-me — atestou o guerreiro, comovido.

— Já está ciente de que preciso de sua ajuda? — responde a jovem, surpresa.

— Estou sim. Um dos privilégios do Elísio é que eu consigo observar a vida daqueles que eram queridos para mim, em vida, então sei que meu querido Aquiles desistiu de viver, e que você está fazendo de tudo para salvá-lo. Sou muito grato por isso.

— Pois então, meu amigo, o que podemos fazer para afastá-lo da morte certa?

— Não se preocupe, Briseida. Outro benefício que recebemos aqui é o de ter acesso a acontecimentos do passado, e já tendo observado toda a vida de meu amor, acho que tenho aqui o que você precisa para salvá-lo — diz Pátroclo, retirando suas grevas de ferro.

— Tome. Entrega-as a Aquiles, essas grevas são diferentes das usadas pelos mirmidões, elas protegem tanto a parte da frente quanto a de trás das pernas. Não posso lhe explicar o porquê, mas com elas você será capaz de salvá-lo.

Briseida pega as grevas entregues por Pátroclo, sem entender exatamente o seu plano, porém acreditando piamente nas palavras do amigo.

— Já está na hora de ir, mortal — diz Tânato, interrompendo o reencontro.

Pátroclo e Briseida se abraçam com força, uma última vez, porém, logo antes dela partir, o guerreiro caído sussurra um último pedido em sua orelha. 

Num piscar de olhos, a jovem acorda, assustada, porém contente com a experiência que acabara de viver. Ao se levantar da cama, vê as grevas entregues por Pátroclo encostadas nela. Logo em seguida, repara que Aquiles já não se encontra na tenda, e percebe que ele já partiu em busca de sua vingança e de seu fim. Briseida não perde tempo, pega as grevas, sai correndo de sua tenda e monta no primeiro cavalo que vê, partindo em direção ao campo de batalha, guiando-se pelos rastros de corpos pelo caminho. 

Depois de cavalgar por uma enorme distância sob o sol escaldante, Briseida avista Aquiles com olhos cheios de raiva e dor, massacrando todos em seu caminho. Ela tenta chamar pelo amigo, porém ele parece estar em uma espécie de transe, agindo puramente por instinto enquanto ataca os troianos. 

— Eis um presente de Pátroclo! Escute seu último desejo e vista isso imediatamente! — grita Briseida enquanto arremessa as grevas para Aquiles.

Ao ouvir o nome de seu falecido amor, Aquiles consegue sair do transe e voltar a raciocinar, e apesar de confuso em meio a luta, ele pega as grevas arremessadas por sua amiga e se esconde atrás de uma pedra rapidamente para calçá-las. Ao adicioná-las à sua armadura, Aquiles não sabe explicar como, mas sente a presença de Pátroclo naquelas grevas, e sente um certo acalento em seu coração, pois sente que está batalhando uma última vez ao lado dele. 

Briseida, que havia conseguido entregar o presente de Pátroclo para seu amigo, segue cavalgando com certa distância enquanto observa Aquiles indo para cima de um dos grandes heróis de Tróia, que se apresentará na frente da muralha: Heitor. Ela estava pronta para impedir Aquiles de continuar avançando após derrotá-lo, pois sabia que o mirmidão não pararia enquanto não tivesse sua vingança, apesar de saber que Pátroclo não desejava isso.

Aquiles então avança pra cima do general, e após uma série de golpes trocados e defendidos com Heitor, Aquiles consegue furá-lo com sua lança, e nesse exato momento em que o mirmidão estava imóvel dando o golpe final, Páris, do alto da muralha, aproveitou-se da imobilidade dele para atirar uma flecha em seu calcanhar, orientação dada pelo próprio deus Apolo. A flecha é disparada com precisão, porém, acerta as grevas de ferro que Aquiles estava usando. Nesse momento, Briseida compreende que o destino de seu amigo havia mudado, e ele estava a salvo.

Aquiles, então, agindo puramente por reflexo do seu corpo, arremessa instintivamente sua lança com precisão e acerta Páris no alto da muralha, que cai morto com a lança presa em seu peito. Nesse momento, Briseida cavalga aceleradamente com seu cavalo até o amigo e o abraça enquanto ele tentava avançar para cima do corpo já falecido do general Heitor. 

— Chega, Aquiles! Já é o suficiente, já teve sua vingança, deixa Heitor aí, não ouse profanar um guerreiro que caiu honestamente em batalha!

Aquiles cai de joelhos, abraça Briseida e começa a chorar copiosamente. 

— Maldito! Não quer que eu me junte a você no submundo? — grita Aquiles, que nesse momento já havia compreendido que seus dois amigos haviam lhe salvado.

— “O que mais quero é te reencontrar, meu amor. Porém, não quero isso agora, quero que você viva bastante e me reencontre no momento certo, para podermos acabar com nossa saudade.” Essa foi a última mensagem que Pátroclo pediu que eu lhe dissesse, meu amigo. Agora, ouça meu pedido. Apenas viva e, sem guerras, aproveite que sua lança não está a seu alcance e se afaste dessa vida, pois feitos épicos e batalhas gloriosas, vocês dois já vivenciaram muitas. Volte para Pátroclo com histórias mundanas sobre seu cotidiano, assuntos leves para conversas tranquilas, e aproveite o resto da eternidade com ele.

Dessa forma, Briseida, uma jovem mortal, conseguiu finalmente ter uma vida tranquila após desafiar seu próprio destino, envolvendo-se com o tão temido submundo para conseguir também desfiar o destino de seu amigo, sendo capaz de salvar tanto sua própria vida como a vida de Aquiles, que, sem a ajuda de sua amiga, teria encontrado a morte certa. 

  

Referências bibliográficas


HOMERO. Ilíada. Tradução de Haroldo de Campos. São Paulo: Arx, 2002-2003.

MILLER, M. The Song of Achilles. [s.l.] London Bloomsbury Paperbacks, 2011.


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