Releitura da história de Briseida em Ilíada - por Julyene de Oliveira Barbosa
Releitura da história de Briseida em Ilíada
Em alguns clássicos da mitologia greca-romana, apesar das modificações as quais eram comuns na época em razão a tradição da oralidade, muitas narrativas de certos personagens foram ocultadas ou ditas através de eufemismos. Esses sentidos figurados, que também se decaíram sobre as mulheres, não estão relacionadas a essa tradição que surgiu na Grécia, mas sim ao machismo e ao patriarcado que já estavam com suas raízes implantadas na sociedade grega. Diante desses clássicos, temos diversas mulheres que foram postas como coadjuvante e foram totalmente apagadas e até mesmo tiveram suas histórias narradas com desverdades. Sendo assim, Briseida, uma mulher que teve um papel construído de tragédias as quais foram despercebidas pela sociedade, faz parte desse grupo de vítimas que tiveram suas vozes inaudíveis em uma sociedade.
Briseida, que ficou conhecida como “A escrava de Aquiles”, era uma mulher que foi raptada durante a conhecida Guerra de Tróia enquanto a cidade era saqueada por um grupo de gregos no qual Aquiles estava atuando e teve seus três irmãos e marido, Rei Mines, assassinados. Assim, da cidade sagrada de Eécion em Tebas, foram trazidos diversas riquezas e “prêmios” que foram divididos e repartidos entre eles. Primeiro, Criseida, também raptada, foi designada ao Rei Agamemnon, e Briseida para Aquiles. No entanto, Crises, pai de Criseida, resolveu pedir por sua filha ao rei, trazendo outras riquezas em compensação, porém Agamemnon o repreendeu. Em consequência, o pai de Criseida era sacerdote de Apolo, o qual atendeu às súplicas de Crises e lançou uma praga. Essa maldição só se cessaria quando Criseida fosse entregue.
“...Fomos para Tebas, a sagrada cidade de Eécion:
saqueamo-la e de lá trouxemos todos os despojos;
bem os dividiram entre si os filhos dos Aqueus.
Para o Atrida escolheram Criseida de lindo rosto.
Mas Crises, sacerdote de Apolo que acerta ao longe,
veio até as naus dos Aqueus vestidos de bronze,
para resgatar a filha, trazendo incontáveis riquezas.
Segurando nas mãos as fitas de Apolo que acerta ao longe
e um cetro dourado, suplicou a todos os Aqueus...”
(HOMERO, Ilíada, Canto I, 365-374)
A partir disso, o rei, raivoso, decidiu se apropriar de Briseida como compensação da sua “desonra”, ou seja, a tomada de Criseida. Aquiles se revolta por ser “desonrado" também pelo próprio rei.
O grande ponto que podemos notar nessa narrativa é a questão de honra e prêmio que desencadeou uma das iras de Aquiles, ou seja, a tomada de seu prêmios “injustamente” que teve como sentido uma “injustiça” sofrida pelo herói. No entanto, o que passa despercebido é como as mulheres são objetificadas ao ponto em que elas são comparadas com prêmios através de um falso empoderamento e contemplação em relação ao sexo feminino. Essa falsa ideia se dá pela comparação das mulheres como algo de valor, sagrado e importante que, inclusive, tem poder de honrar os homens, porém alimenta uma objetificação e apagamento da subjetividade da mulher.
A situação é narrada do ponto de vista somente dos heróis e os sentimentos e autonomia das personagens femininas são completamente ocultados. As perspectivas masculinas, assim como seus sentimentos e emoções se sobressaem à Briseida, o que ocasiona um esquecimento ou até mesmo costume com a situação em que ela se encontra. É tido como exemplo os momentos de indignação de Aquiles e confronto entre o rei que carregam papel principal na história, escondendo completamente a situação que mais merece indignação, a que Briseida se encontra: sequestrada e mantida como escrava.
Inclusive, o nome verdadeiro de Briseida era Hipodâmia, e Briseida significava “Filha de Briseu”, um ponto reflexivo de como as mulheres não possuíam seus próprios títulos e, muitas vezes, eram sempre relacionadas a uma imagem masculina. E, com isso, é importante salientar que essa perspectiva reflete a maneira que a sociedade convivia com certas situações e de que maneira a mulher estava inserida na sociedade.
Outro aspecto a ser analisado é de como Aquiles é retratado diante disso. A situação do herói é descrita com uma narrativa de desolação e desamparo em razão da perda de sua honra, do seu “bem”, ou seja, Briseida. A cena é narrada com base no choro de Aquiles que, inclusive, é justificado pelo seu “amor” e afeição por Briseida.
“São apenas os filhos de Atreu que gostam das suas mulheres,
entre os homens mortais? Todo aquele que é bom homem
e no seu perfeito juízo ama e estima a mulher, tal como eu
amava aquela, apesar de ela ser cativa da minha lança.”
(HOMERO, Ilíada. Canto IX, 340-343)
Dessa forma, uma “sensibilidade” é criada sobre Aquiles, o que ofusca sua ação de escravização em relação à Briseida. Portanto, existe uma romantização da relação de Aquiles com Briseida que maquia a realidade da situação. Nesse mesmo sentido, ainda é possível citar a visão das outras mulheres em relação a elas mesmas, com o exemplo do lamento de Aquiles. Durante seu desabafo, a mãe de Aquiles, Tétis, se revela e o consola, mostrando seu apoio sobre aquele caso. Isso mostra a forma a visão alienada e sem autonomia das próprias mulheres daquela sociedade.
A partir dessa sobreposição da imagem masculina e até mesmo de uma imagem de poder em relação à mulher, Briseida é mais uma vez resumida à Aquiles, tendo sua história e sofrimento apagados. Assim como Briseida, outras mulheres dentro da literatura são esquecidas completamente e têm suas importâncias extinguidas, sendo designadas apenas como um ser em segundo plano. Esse fato trágico reflete a maneira como a mulher está posta no meio social, que não é somente aquele antes de Cristo, mas também este da atualidade em que vivemos.
RELEITURA
Hipodâmia. Seu nome ressoava quase fraco na memória. Fazia anos que era conhecida como filha de seu pai. Briseida não se recordava das vezes em que era reconhecida pelo seu nome nem pelo que era. Certo dia, foi raptada pelos aqueus, assim como Criseida, e foram repartidas como prêmios honrosos entre os guerreiros. Briseida era o prêmio de Aquiles e Criseida do grande rei de Micenas. “Como somos prêmios honrosos se somos vazias honra?”, pensou Briseida.
Briseida passava seus dias à espreita, sempre quieta e obediente no seu lugar, assim como todos os prêmios deveriam ser. Outro dia, o pai de Criseida tentou resgatar sua filha com a tentativa de um acordo com Agamemnon, mas foi através de uma humilhação que o genitor de Criseida retornou desolado. Mas ouviu as preces do velho homem, o poderoso Apolo, e assim lançou as pragas em meio aos homens. Dessa forma, Criseida voltou à sua origem, liberta. Porém, Agamemnon, ainda egoísta e poderoso, tomou Briseida para que ainda desfrutasse de algum prêmio, pois, para ele, era merecedor.
Aquiles, tomado pela raiva, deixou o campo de guerra, pois sabia da sua importância. “Sou injustiçado pelo rei. Como viverei sem minha honra, pois sou digno e merecedor. Não choro pela minha desonra, mas sim clamo pelo meu presente, Briseida, que sou grato e a amo como um guerreiro ama seu prêmio e assim há de saber como a quero. Devolva-me o meu tesouro, pois não lidarei com tal desaforo.” Exclamou Aquiles sua revolta. Com a saída de Aquiles, eles estavam em desvantagem. O rei, estratégico, não viu outra opção além da devolução da própria Briseida. Aquiles era resistente a seus desejos e não cedeu para outras riquezas que lhe foram oferecidas. Então, Agamemnon insistiu em sua decisão e retornou Briseida a Aquiles que, desconfiado, duvidou que Agamemnon pudesse tê-la usado. Com o desespero pela volta do guerreiro, Agamemnon jurou de joelhos pela honra de Briseida.
Briseida, no ponto de vista de Aquiles, já não tinha com o que se preocupar, pois estava com seu verdadeiro merecedor: “Não te preocupes, Briseis! Está salva por mim e pelo meu amor. Sou grato e merecedor por uma honrosa mulher como você que os deuses destinaram a mim. Te quero como quero riquezas.” - proferiu as palavras mais doces que conseguiu o grande Aquiles. Briseida ainda o observava. Refletia que Aquiles desejava suas obediências e seu silêncio. E como todos esperavam, ela deveria desejar, pois era desejada. Mas eram repulsa e ódio que Briseida continha. “Talvez Aquiles pudesse ser um guerreiro sensível e amável de verdade se não fosse tomado pelo seu ego e pelo não raciocínio que faz dele mais um homem mortal.” - pensou Briseida.
Assim, Briseida clamou por Apolo e Hera:“Ó Deusa imortal que possui as forças dignas da vitória, Hera, poderosa e sagaz. Me dê o raciocínio que me guiará até minha liberdade. A ti, adorarei e propagarei todo seu poder. Ó Apolo, Deus ilustre que me harmoniza com sua lira. Me ilumina com sua forte luz para que os meus olhos me levem para longe de Aquiles. Farei de ti meu escudo e meu ideal.” Briseida não se esquecia. Dentro dela havia uma agonia e não contentamento irresistível. Por isso, clamou para seus deuses, pedindo por ajuda e por força. Ela já não era capaz de tolerar seu destino forçado. “Não há deus no Olimpo que houve de me trazer um destino tão medíocre e sádico. Não há esperança dos mortais que compreenda tal destino. Preferirei os destinos mais mortais daqueles que me oprimem.” - pensava mais uma vez Briseida.
Foi então que veio, entre os homens, Hera, carregando a mais odiosa flecha embebida de veneno: “Te entrego a arma que precisa para que alcance o poder e a liberdade. Faça sua vingança e tome aqueles que te reprimem como seu escudo e troféu.” Briseida a guardou de modo inalcançável ao olhar alheio. Logo, enquanto ela dormia, Apolo fez de seus sonhos uma menção de uma espada preciosa e honrosa, a espada de Aquiles. “Guarde-a com si. Será tua chave ao teu broche que carregará no peito e, assim, verão quão poderosa há de ser.” Dessa forma, Briseida, ainda que desperta, enxergava a poderosa espada.
Certa noite, enquanto todos se preocupavam com seus inimigos, coincidentemente Briseida afiava seus pensamentos. Ela observava o grande Aquiles banhando seu corpo junto a feridas e cicatrizes. A luz da vela realçava o caminho que a água fazia ao escorrer em seus ombros. O barulho do fogo queimava junto com o coração de Briseida que nem as gotas de suor dissolvida na água seriam capazes de amenizar. Em passos silenciosos e com os olhos refletindo a chama daquele fogo, Briseida carregava suavemente a poderosa flecha que Hera lhe trouxe. Ainda virado, Briseida se aproximou e passou suas mãos nos largos e rígidos ombros do mais sagaz guerreiro. “O que há de querer, querida Briseis?” - perguntou a ela, virando sutilmente, de modo que Briseida, impiedosamente, fincou firme a flecha em seu peito. As palavras não se soltaram da boca de Aquiles, e seu corpo deixou-se vencer pela fraqueza. “Vá em paz, querido Aquiles. Não te preocupes com a sua desonra, pois jamais houve de ser traído. Não amo Agamemnon como muito menos a ti. Quero que morras, porque teu desejo me desonra. Não serei tua, nem Briseida.”
As palavras se libertaram de sua boca docemente. Aquiles ainda, de olhos abertos que pareciam desesperados, buscou pela mão de Briseida que estava em seu peito em meio ao seu sangue. “Morrerás em paz, junto a teu querido Pátroclo.” - disse ao se levantar. Limpou o sangue de Aquiles do seu vestido e carregou junto a si a espada pesada do mesmo.
Ainda presa na noite, Briseida arrastava a espada junto a seus passos determinados. Apolo fez com que os aliados do rei se preocupassem com outros guerreiros que ameaçavam o território. Briseida calmamente entrou no recinto em que Agamemnon se encontrava deitado com o semblante adormecido. Briseida, encarando Agamemnon, levou a espada odiosamente pesada e decepou sua cabeça, fazendo com que ela rolasse para fora da cama caindo sobre seus pés, assim como fez Zeus astuto ao cortar o mal, decepando o pênis de seu pai, Cronos.
Briseida, então, deu um suspiro e encarou a face caída de Agamemnon ainda com o semblante relaxado, descansando pacificamente. “Talvez seja porque nem notou a própria morte, pobre homem.” - falavam em sarcasmos os pensamentos de Briseida e foi, logo, que ela deu voz à eles: “Que vás em paz, Ô grandioso rei. Não quererei teu perdão, pois nada tenho a me redimir. Somente lutei contra minha opressão e a favor da minha liberdade. Ainda, nada deve duvidar de Aquiles, seu honroso soldado, pois dele já não sobra vida. Esse também foi uma mera 'vítima'.”
Briseida caminhou segurando a cabeça de Agamemnon que sujava suas vestes claras de sangue. Por um tempo, ela passou despercebida por uns e outros guerreiros, mas logo foi estranhada por alguns que se perguntaram quem era ela e o que fazia ali, e sucessivamente, o porquê estava manchada de sangue ou o que teria acontecido e, depois, o porquê de carregar um uma cabeça e, mais precisamente, a cabeça do rei. O desespero entre esses foi instalado e por isso não tiveram reação. Calados, acompanhavam com seus olhos incrédulos os passos de Briseida, que chegava a um certo tipo de lugar que continha pedras. Alguns guardiões se atreveram, mas foram impedidos pela sua incertezas, pois a quem deviam recorrer? Estavam sem ordens, perdidos e sem rei. Briseida subiu em uma das pedras e alcançou a mais alta.
Encarando aqueles diversos olhos confusos, desesperados, estatelados, cansados e curiosos, Briseida levantou a cabeça de Agamemnon e pronunciou as palavras: “Eis aqui a cabeça do vosso rei que adormece em minhas mãos. Não aceitarei ira e nem revolta, pois essa cabeça é prova. Recebi as forças de Hera e a luz de Apolo. Esse é meu caminho para a honra, pois logo me honrem como jamais fui.” Mas “Quem és?”, perguntou um soldado e, portanto, todos ouviram a resposta: “Sou, se não a rainha de Micenas, a matadora do vosso rei e salvadora de mim, Hipodâmia.”
REFERÊNCIAS
HOMERO. Ilíada. Tradução: Frederico Lourenço. Companhia das Letras. São Paulo, 2013.
WORDPRESS, a guerra de Tróia - Briseida. 2013.
Disponível em: https://aguerradetroia.wordpress.com/tag/briseida/
https://www.filosofia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=32&evento=1
